O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a abrir inquérito para investigar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por suspeita de tráfico de influência e corrupção. A decisão saiu na quinta-feira, 30 de julho, e atendeu a pedido protocolado pela corporação em 24 de julho. A apuração quer esclarecer se o empresário atuou junto ao Ministério da Saúde e ao gabinete da Presidência para viabilizar a comercialização de produtos à base de cannabis medicinal em favor da World Cannabis, empresa ligada ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
No dia seguinte, 31 de julho, o mesmo ministro autorizou um segundo inquérito. Dessa vez, a suspeita é de que o filho do presidente tenha atuado em favor de um empresário do setor de tecnologia interessado em negócios com a Dataprev, estatal responsável pelas bases de dados da Previdência Social e de programas sociais. Nesse caso, a polícia investiga corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e organização criminosa. Um terceiro pedido de investigação foi feito pela corporação e ainda não havia sido distribuído a nenhum ministro do Supremo.
A cobertura de centro relatou o trâmite com detalhe: o pedido chegou ao tribunal durante o plantão do Judiciário, foi enviado à Procuradoria-Geral da República, que se manifestou pela livre distribuição, e voltou por sorteio às mãos do mesmo relator da Operação Sem Desconto, que apura os desvios contra aposentados. Registrou também os números do caso. A empresária Roberta Luchsinger, amiga do investigado, recebeu R$ 1,5 milhão do lobista em cinco parcelas de R$ 300 mil e nega ter repassado qualquer valor a ele. O contrato pretendido com o Ministério da Saúde nunca foi assinado, e a pasta afirma jamais ter tido relação comercial com a empresa citada. A estatal de tecnologia também nega contrato com a companhia sob suspeita. O investigado admitiu ter viajado a Portugal com despesas pagas pelo lobista para conhecer uma fábrica de canabidiol.
Veículos de esquerda enfatizaram que não existe, até agora, comprovação pública de favorecimento nem de repasse de dinheiro ao filho do presidente, e deram peso à tese da defesa de que a nova frente é uma pesca probatória aberta depois que a investigação sobre o INSS não encontrou irregularidades. Destacaram ainda o atrito institucional em curso: a Polícia Federal acionou a Advocacia-Geral da União para contestar determinações do relator que obrigam a juntada imediata de todos os atos ao gabinete dele e a comunicação prévia de qualquer afastamento de policiais da equipe.
Veículos de direita enfatizaram o acúmulo de indícios financeiros e trataram a proximidade do calendário eleitoral como razão a mais para apurar, não para adiar. Deram relevo à suspeita da polícia de que o investigado seria sócio oculto do lobista, à movimentação bancária identificada na quebra de sigilo, à mudança dele para o exterior no meio das apurações, descrita pelos investigadores como possível evasão, e à tentativa de parlamentares governistas de barrar seu indiciamento na comissão parlamentar de inquérito sobre o INSS. A cobertura opinativa desse campo sustentou que parente de presidente não pode receber tratamento privilegiado e que decisões judiciais não devem se pautar pelo calendário eleitoral.
A defesa nega irregularidades em todas as frentes. Os advogados afirmam que o investigado não recebeu pagamento por negócios de empresários com o governo, que não tiveram acesso aos autos dos novos inquéritos e que a sucessão de pedidos configura uma tentativa de melhor de três. O presidente disse em entrevista a um podcast que o filho jura inocência todos os dias, mas que não haverá privilégio e que ele terá de provar que está certo. O Palácio do Planalto não comentou o caso.
Ainda não se sabe se houve repasse efetivo de valores ao filho do presidente, a quem se refere a mensagem interceptada que menciona uma transferência de R$ 300 mil ao filho do rapaz, se algum contrato público foi assinado em razão da suposta intermediação e em que prazo os inquéritos serão concluídos. Também não está definido se o terceiro pedido de investigação será aceito nem quem seria seu relator.