O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, afirmou ter sido alvo de monitoramento ilegal e sistemático da inteligência da Polícia Federal e usou esse argumento para determinar, na terça-feira, o afastamento de Andrei Rodrigues da direção do órgão. Os documentos que embasam a queixa, no entanto, não registram vigilância física, interceptação telefônica nem coleta de dados de localização sobre o ministro.
O material é uma reunião de análises de inteligência demandadas pelo ministro Alexandre de Moraes. Os relatórios tratam de informações sigilosas sobre inquéritos, trazem relatos de reuniões fechadas entre delegados e Mendonça e fazem inferências sobre o modo como ele conduziu determinados casos, incluindo a comparação do tempo que o relator levou para despachar investigações de políticos de direita e de esquerda. Mendonça sustenta que as análises foram produzidas entre 6 e 31 de agosto e que, por isso, estaria sob acompanhamento havia mais de trinta dias.
A própria Polícia Federal registra nos documentos que aquelas informações não se prestam a instruir procedimento de qualquer natureza, a fundamentar representação ou a ser citadas como fonte em documento externo. Mendonça afirma que os textos faziam análises subjetivas de decisões judiciais e configurariam arapongagem institucional. A decisão aponta ainda que, ao produzir e fazer circular os relatórios, a corporação expôs dados sigilosos de investigações em curso, entre eles a sugestão de separar em petições distintas os casos do presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e do ex-prefeito de Salvador ACM Neto. Segundo o ministro, isso acabou alertando potenciais alvos sobre a possibilidade de buscas e de medidas cautelares.
Os relatórios também citam o advogado-geral da União, Jorge Messias, e apontam uma suposta aliança política com Mendonça sustentada por matriz religiosa comum, já que ambos são evangélicos. Moraes usou o material para sustentar que o relator teria agido para direcionar investigações ligadas ao Banco Master, e o presidente do Supremo, Edson Fachin, determinou depois a retirada desses documentos do inquérito das fake news.
Veículos de esquerda destacaram o descompasso entre a acusação de espionagem e o conteúdo efetivo dos documentos, além do peso institucional de um ministro afastar o chefe da polícia que apura casos sob sua relatoria, entre eles as fraudes contra aposentados no INSS. A cobertura de centro reproduziu a mesma apuração em tom descritivo, com ênfase na cronologia da decisão, nas citações literais do despacho e no registro de que o material serviu de base para Moraes falar em abuso de autoridade do relator. Até o momento, veículos de direita não publicaram cobertura própria sobre o episódio no conjunto reunido, de modo que o enquadramento de controle sobre a atividade de inteligência policial aparece apenas de forma indireta, pelas passagens em que a corporação admite que os relatórios não têm valor probatório e pela descrição das anotações sobre reuniões fechadas e sobre a religião das autoridades citadas.
Segue em aberto se o afastamento de Andrei Rodrigues será mantido, quem determinou a produção dos relatórios dentro da estrutura de inteligência e qual foi o rito de aprovação interna desse material. Também não há, no que foi divulgado, resposta formal da direção da Polícia Federal às acusações de monitoramento, nem esclarecimento sobre o andamento das investigações do INSS e do Banco Master enquanto o conflito entre o tribunal e a corporação não se resolve.