O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça divulgou em 3 de setembro de 2026 duas notas fiscais de uma alfaiataria de luxo, que somam R$ 26,4 mil, para rebater a suspeita de ter recebido ternos pagos por pessoas ligadas a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Os documentos, emitidos em nome de sua mulher, Janey Nagliatti Mendonça, registram uma compra de R$ 16,5 mil em 8 de fevereiro de 2025, com camisas, ternos e conjuntos sob medida, e outra de R$ 9,9 mil em 28 de fevereiro do mesmo ano, com blazer sob medida e acessórios. As notas foram juntadas pelo gabinete do ministro.
A suspeita nasceu de mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro. Nelas, o advogado baiano Ciro Rocha Soares envia a Vorcaro uma fotografia ao lado do ministro na loja do alfaiate Vasco Vasconcellos, em São Paulo, acompanhada de um áudio gravado justamente em 8 de fevereiro de 2025: "Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno". Segundo as mesmas conversas, a tentativa de aproximação com o ministro foi articulada pelo advogado e pelo deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo, e tinha como pano de fundo os problemas do Banco Master junto ao Banco Central. Em outro trecho, Ciro Rocha Soares afirma que Mendonça queria receber o empresário.
Há um núcleo de fatos que atravessa toda a cobertura sem contestação. Em março de 2025, o ministro recebeu Daniel Vorcaro fora da agenda oficial e fora do tribunal, no escritório do Instituto Iter, entidade de cursos fundada pelo próprio magistrado. Em nota, André Mendonça afirmou que recebeu o empresário uma única vez, por iniciativa dele, que se limitou a ouvi-lo, que atendeu no mesmo mês o advogado do empresário e que mantém nos registros do gabinete os memoriais escritos sobre o encontro. Também é ponto comum que a revelação das conversas ocorreu depois de o próprio Mendonça retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal sobre a relação do ministro Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro, e que os dois integrantes da corte trocam acusações públicas, incluindo um pedido de investigação do primeiro por abuso de autoridade.
A cobertura de centro tratou o episódio como mais um capítulo de uma crise institucional em curso no Supremo, encadeando a suspeita, a resposta documental e o confronto entre ministros na mesma linha do tempo, sem tomar partido sobre o que as notas provam. Veículos de direita enfatizaram o valor probatório dos documentos e a coincidência de datas entre a primeira nota e o áudio do advogado, apresentando o caso como acusação desfeita e sugerindo retaliação contra um ministro que abriu um relatório incômodo para um colega; nesse enquadramento, o material sobre o confronto interno do tribunal aparece de forma seletiva. Veículos de esquerda não publicaram versão própria do episódio até o fechamento desta análise, e a leitura habitual desse campo desloca o foco do comprovante de compra para o acesso em si: um banqueiro sob escrutínio regulatório conseguiu, por meio de um deputado e de um advogado, uma audiência reservada com um julgador, fora da agenda e fora do tribunal, o que expõe a ausência de regras firmes de transparência e de responsabilização na cúpula do Judiciário.
O que ainda não se sabe é considerável. Nenhuma fonte esclarece se as peças descritas nas notas correspondem ao terno mencionado no áudio, e as versões divergem sobre o estabelecimento: uma parte da cobertura vincula as compras à loja do alfaiate Vasco Vasconcellos, outra registra o nome de uma alfaiataria diferente nos documentos. Também não há checagem independente das notas junto ao comércio, nem manifestação de Daniel Vorcaro, de Ciro Rocha Soares ou de Cezinha de Madureira sobre as conversas atribuídas a eles. Por fim, permanece em aberto se a atuação do ministro em processos de interesse do Banco Master será objeto de apuração formal e qual será o desfecho do confronto entre integrantes do tribunal.