Mesmo depois do atrito público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) segue como o principal nome da direita para a corrida presidencial de 2026. É o que aponta a pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada em 2 de julho: entre os eleitores de Jair Bolsonaro, 81,9% preferem Flávio, contra 14,7% que apontam Michelle. O levantamento ouviu 4.999 pessoas entre 26 e 30 de junho, tem margem de erro de um ponto percentual e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-04582/2026.
A crise começou em 24 de junho, quando Michelle publicou vídeos em suas redes afirmando ter sido humilhada, desrespeitada e maltratada pelo enteado em discussões sobre decisões do partido. Depois de dias de tensão, e de uma reunião com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, a ex-primeira-dama anunciou, em 30 de junho, que deixava a presidência do PL Mulher para, segundo sua nota, dedicar-se integralmente à família. Flávio pediu desculpas e passou a repetir que divergências políticas não são divergências de princípios.
A cobertura de centro, majoritária neste caso, relatou os fatos com paridade: os números da pesquisa, a saída de Michelle, a reação de Flávio, que chamou de desinformada a insinuação de que teria participado de festas do fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e a ofensiva da pré-campanha para reconquistar o eleitorado feminino, com um café da manhã reunindo deputadas do PL em Brasília. Veículos de esquerda enfatizaram outro ângulo: a acusação de misoginia dentro de um campo que se apresenta como defensor das mulheres, o enfraquecimento do elo do bolsonarismo com o voto feminino conservador e evangélico e o fato de o mesmo levantamento mostrar Lula à frente no segundo turno, com 48,8% contra 42,3% de Flávio. Registraram ainda que Michelle chegou a elogiar uma política de educação bilíngue para surdos lançada pelo governo Lula, em meio ao desgaste com o enteado.
Já a leitura da direita, ecoada por aliados de Flávio na própria cobertura, minimiza o episódio: para o senador Carlos Portinho e outros dirigentes do PL, trata-se de assunto de família que se resolve, subordinado ao objetivo maior de derrotar Lula em 2026. Nesse enquadramento, Flávio aparece consolidado como herdeiro político do pai, hoje preso, lidera até entre as mulheres na pesquisa e reforça propostas de segurança pública, como tratar as facções PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas e endurecer o regime nos presídios.
O que ainda não se sabe é se a reconciliação anunciada por Flávio realmente se sustentará ao longo da campanha, qual será o impacto concreto da saída de Michelle sobre o voto feminino e se a ex-primeira-dama pretende, como sugerem parte dos entrevistados, disputar espaço político próprio dentro do PL. Também não está claro como as promessas de segurança pública apresentadas por Flávio se traduziriam em medidas viáveis.