A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) tornou-se alvo de críticas dentro do próprio campo bolsonarista após elogiar, na sexta-feira, a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, lançada pelo Ministério da Educação no governo Lula. Michelle chamou a medida de sonho realizado e parabenizou a comunidade surda em publicação nas redes sociais. A reação de parte da base foi imediata: parlamentares e lideranças do PL passaram a compartilhar montagens da ex-primeira-dama com a camisa do PT e a chamá-la de traidora.
No sábado, Michelle respondeu às críticas. Afirmou que sempre foi defensora das pessoas com deficiência e que essa pauta está acima de qualquer ideologia ou partido. Sustentou ainda que a política de educação bilíngue de surdos foi elaborada e apresentada durante o governo de Jair Bolsonaro, mas que uma ação judicial atrasou a tramitação e impediu a entrega antes do fim do mandato.
A cobertura de centro, como a da CNN Brasil e a do texto de agência do Estadão, relatou os fatos de forma factual, detalhando a reação da base bolsonarista e a divisão interna do partido. Esses veículos acrescentaram um dado concreto: Michelle citou como precedente a sanção, por Bolsonaro, da Lei Amália Barros, projeto de autoria de um parlamentar do PT que reconheceu a visão monocular como deficiência sensorial, para argumentar que o marido avaliava o mérito das propostas independentemente de quem as apresentava.
Veículos de direita e a leitura provável desse campo enfatizam a coerência pessoal de Michelle e a origem da política ainda no governo anterior, tratando o elogio como gesto de convicção sobre inclusão, não como adesão ao adversário. Já veículos de esquerda, como a CartaCapital, destacaram que Michelle foi atacada pela própria direita por reconhecer uma iniciativa social do governo Lula, e enquadraram Flávio Bolsonaro como o principal adversário de Lula na corrida presidencial, associando o episódio a uma resistência do bolsonarismo em admitir avanços sob outra gestão.
Todos os lados convergem em que o episódio está entrelaçado a uma crise maior dentro do PL. Na semana anterior, Michelle divulgou um vídeo relatando ter sido desrespeitada e humilhada pelo enteado, o senador Flávio Bolsonaro, durante uma ligação telefônica. Flávio pediu desculpas publicamente horas depois. A divisão entre parlamentares do partido culminou na saída de Michelle do comando do PL Mulher, grupo que ela liderava desde 2023. Segundo apuração de bastidores da CNN, a ex-primeira-dama tem indicado que não pretende subir no palanque de Flávio durante o processo eleitoral, e deve concorrer ao Senado pelo Distrito Federal.
O que ainda não se sabe é como o PL vai administrar a fratura entre a ex-primeira-dama e o pré-candidato à Presidência às vésperas de 2026, nem se as tentativas de reconciliação intermediadas pelo presidente do partido, Valdemar Costa Neto, terão efeito. Também permanece em aberto o desdobramento do desgaste para a pré-campanha de Flávio, que já lidava com a repercussão de sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro.