A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, candidata do Partido Liberal ao Senado pelo Distrito Federal, voltou a pedir votos para o senador Flávio Bolsonaro, candidato do mesmo partido à Presidência da República, durante ato realizado em Brasília na terça-feira, 18 de agosto. O pedido foi feito no lançamento do comitê de campanha do deputado federal Alberto Fraga, que disputa a reeleição, e representa o gesto mais explícito de reaproximação entre a madrasta e o enteado depois de meses de atrito interno no partido.
No discurso, Michelle afirmou que o país vive um momento decisivo, disse ser preciso eleger Flávio Bolsonaro presidente e pediu apoio ao que chamou de chapa do coração de Jair Bolsonaro, seu marido, que cumpre prisão domiciliar após condenação a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado. A jornalistas, a candidata afirmou que não descarta cumprir agendas ao lado do enteado caso ele venha ao Distrito Federal durante a campanha. No mesmo dia, em entrevista a uma emissora de rádio, Flávio elogiou a atuação da ex-primeira-dama e disse que ela já começou a pedir votos para a sua candidatura.
Os dois veículos que cobriram o episódio convergem nos fatos centrais e também no detalhe mais desconfortável da cena: o palanque era de José Roberto Arruda, ex-governador que agora concorre ao Palácio do Buriti pelo PSD e é adversário direto da governadora Celina Leão, do Progressistas, amiga e aliada de Michelle. A ex-primeira-dama abriu a fala elogiando Arruda, disse ter carinho e respeito pela história dele e brincou que ele não deveria ter deixado o PL. Arruda, que lançou o ex-deputado Ronaldo Fonseca ao Senado, respondeu que os caminhos na política às vezes se encontram mais à frente e declarou gratidão a Jair Bolsonaro.
A cobertura de centro foi a que mais investiu na cronologia do conflito familiar. Ela relatou que a candidatura de Michelle foi confirmada pelo PL em 2 de agosto, em plena queda de braço com a campanha presidencial do enteado, e que o estopim foi a montagem da chapa no Ceará: a ex-primeira-dama queria que o partido sustentasse a candidatura de Priscila ao Senado e rejeitava a aliança com Ciro Gomes, enquanto Flávio, apoiado pelo presidente estadual do PL, articulou o caminho oposto e venceu a negociação. Esse mesmo texto registrou que os dois ficaram oito meses sem contato, que Michelle deixou o comando do PL Mulher e que houve um reencontro em 11 de agosto, em Brasília, para a gravação de peças eleitorais, ao fim do qual ela afirmou que o rompimento é página virada.
Já os veículos de direita concentraram o relato na cena do palanque e nos sinais de acomodação entre os dois grupos, dando destaque ao tom amistoso com Arruda e à declaração de que haverá agendas conjuntas com o presidenciável. Veículos de esquerda não registraram o episódio até o momento, de modo que a leitura crítica da concentração familiar do comando partidário e do passado político do candidato elogiado no palanque não aparece na cobertura disponível.
Há pontos que nenhuma das reportagens resolveu. Não se sabe se o PL manterá o apoio formal a Celina Leão no governo do Distrito Federal, nem como a ex-primeira-dama concilia esse apoio com a presença no comitê de um adversário dela. Também não está definido se a trégua com Flávio Bolsonaro se converterá em palanque comum e em qual data, e nenhuma das partes envolvidas na disputa do Ceará, incluindo Ciro Gomes e a direção estadual do partido, foi ouvida sobre o desfecho da negociação.