Ministros do Supremo Tribunal Federal já projetam como será o futuro da corte a partir de 2027, conforme o resultado da eleição presidencial deste ano. A avaliação compartilhada por magistrados de diferentes alas, segundo a reportagem original da Folha de São Paulo, é que o tribunal seguirá como um dos principais focos de tensão da política nacional, seja quem for o vencedor da disputa entre o presidente Lula, do PT, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL.
A cobertura de centro relatou os dois cenários com paridade. No caso de uma vitória de Flávio, apesar da imagem de moderação que o senador tenta construir, os ministros preveem o retorno a uma agenda de conflitos diários entre o Palácio do Planalto e o tribunal, nos moldes da gestão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Já uma reeleição de Lula manteria, na leitura dos magistrados, uma relação cordial entre os Poderes, embora o tribunal continue acionado para arbitrar disputas entre o governo e o Congresso, sobretudo se a oposição formar bancada forte.
Todos os lados convergem em um ponto factual: o próximo mandato vai redesenhar a composição do Supremo. Três ministros se aposentam compulsoriamente por idade, ao completar 75 anos: Luiz Fux em 2028, Cármen Lúcia em 2029 e Gilmar Mendes em 2030. A corte ainda tem uma vaga aberta desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso. Lula indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias, rejeitado pelo Senado em uma derrota histórica para o governo, e afirmou que vai insistir na escolha após conversar com o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre. Em setembro de 2027, Alexandre de Moraes assume a presidência do STF, fator que os ministros consideram capaz de elevar as tensões em um eventual governo Flávio.
É na interpretação desse quadro que as coberturas divergem. Veículos de direita, como o que republicou integralmente a matéria, enfatizam que o Supremo é hoje formado por maioria de ministros indicados por governos do PT, com apenas Kassio Nunes Marques e André Mendonça vindos da gestão Bolsonaro, e dão relevo às propostas de reforma do Judiciário defendidas pela direita: fixação de mandatos para ministros, limite a decisões monocráticas, revisão de decisões do STF pelo Congresso e facilitação de pedidos de impeachment. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, é citado defendendo essa agenda. Veículos de esquerda, por sua vez, leem a chamada pauta anti-STF como ameaça à independência do Judiciário e às conquistas consolidadas na jurisprudência, destacando o risco de retrocesso em meio ambiente, saúde pública e direitos de povos indígenas, áreas em que as políticas de um governo Flávio tenderiam a contrariar a corte. Nessa leitura, Moraes aparece como o principal contraponto ao bolsonarismo, em razão das decisões sobre a trama golpista que condenaram Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão.
Há ainda o eixo externo: auxiliares de ministros avaliam que um eventual governo Lula buscaria acomodação para evitar atritos e possíveis sanções dos Estados Unidos a autoridades brasileiras, enquanto de Flávio se espera uma postura de apoio às ações do presidente Donald Trump, o que também gera preocupação no tribunal.
O que ainda não se sabe é como esses cenários se concretizarão. As projeções vêm de ministros e auxiliares que falaram reservadamente, sem identificação, e não houve manifestação direta de Flávio Bolsonaro ou do PL para contrapor a leitura atribuída ao Supremo. O desfecho do pleito de outubro, a composição das bancadas na Câmara e no Senado e o ritmo das aposentadorias é que dirão se as fissuras previstas entre o tribunal e o Planalto realmente se abrirão.