Dados da Relação Anual de Informações Sociais, a Rais, divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, indicam que as mulheres ficaram com 57,4% dos vínculos formais criados no Brasil entre janeiro de 2023 e junho de 2026. Foram 10,1 milhões de novos postos com carteira assinada no período: 5,8 milhões ocupados por mulheres e 4,3 milhões por homens. O resultado alterou a composição do mercado de trabalho formal, mas não eliminou a diferença acumulada entre os dois grupos.
No estoque total, as mulheres respondem hoje por 46,4% dos 62,8 milhões de vínculos ativos, o equivalente a 29,2 milhões de postos. Os homens seguem com 53,6%, ou 33,7 milhões. No início de 2023, a participação masculina era de 55,7% e a feminina, de 44,2%. Em pouco mais de três anos, a fatia das mulheres subiu 2,2 pontos percentuais e a dos homens recuou 2,1 pontos. Ainda assim, elas têm cerca de 4,5 milhões de vínculos a menos que eles.
O mesmo levantamento traz o perfil do trabalhador registrado. São 27,3 milhões de vínculos de pessoas que se autodeclaram pardas, 26,8 milhões de brancas, 4,6 milhões de pretas, 600 mil de amarelas e 239 mil de indígenas. Do total, 54% correspondem a trabalhadores com ensino médio, e 15,2 milhões têm ensino superior ou pós-graduação. O rendimento médio dos empregos formais ficou em R$ 4.389,49. O setor de serviços concentra 38,2 milhões de vínculos, seguido por comércio, com 10,5 milhões, indústria, com 9,1 milhões, construção, com 3 milhões, e agropecuária, com 1,8 milhão.
A leitura desses números divide a cobertura. Veículos de esquerda destacaram o avanço da participação feminina como marca do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, enfatizando que a maior parte das vagas abertas desde 2023 foi para trabalhadoras e que a distância histórica entre homens e mulheres diminuiu, ainda que a igualdade siga distante. Nessa chave, formalização e retomada do emprego com carteira assinada aparecem como redução concreta de desigualdade, com o recorte racial da Rais reforçando a leitura de um mercado mais diverso.
Veículos de direita enfatizaram outro recorte, e sequer trataram dos dados de emprego: apontaram o contraste entre o discurso de valorização das mulheres e a composição do próprio governo, em que apenas 8 dos 38 ministérios são comandados por mulheres. O mesmo enquadramento lembrou que, entre as indicações de Lula ao Supremo Tribunal Federal desde sua primeira eleição, uma única foi de uma mulher, a de Cármen Lúcia, em 2006, e concluiu que a representatividade nas estruturas de comando é mais limitada do que a retórica sugere. A cobertura de centro esteve ausente neste recorte: até o momento nenhum veículo de perfil estritamente factual tratou dos números, o que deixa a comparação restrita aos dois enquadramentos ideológicos.
Há um ponto de método que separa as duas leituras e não é apenas retórico. O índice de 57,4% se refere ao fluxo, ou seja, às vagas criadas no intervalo, e não ao estoque de empregos formais existentes, no qual as mulheres continuam em 46,4%. Manchetes que tratam fluxo e estoque como a mesma coisa produzem impressões diferentes a partir da mesma tabela.
O que ainda não se sabe é considerável. Nenhuma das coberturas informa a diferença de rendimento entre homens e mulheres, nem em quais setores e faixas salariais as novas vagas femininas se concentraram, informação que definiria se o avanço veio de postos mais bem pagos ou de ocupações de menor remuneração. Também não há comparação com o mesmo intervalo de governos anteriores, o que impediria ou sustentaria a atribuição do resultado a políticas específicas do Executivo federal. Não foram apresentados o detalhamento metodológico da Rais para o período nem qualquer manifestação do governo sobre a crítica à composição ministerial e às indicações ao Supremo.