A médica-veterinária Vitória Valle de Oliveira Pinha, de 36 anos, morreu no sábado, 22 de agosto, quatro dias depois de ser atacada por um cão pastor-belga-malinois no canil do Serviço de Cinotecnia do Senado Federal, em Brasília. A morte foi confirmada por nota da Casa Legislativa e pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária do Distrito Federal. Nesta segunda-feira, 24, a Polícia Civil do Distrito Federal informou que abriu inquérito e apura o caso como acidente de trabalho, na 5ª Delegacia de Polícia, com posterior encaminhamento ao Ministério Público.
O ataque ocorreu na manhã de terça-feira, 18 de agosto, quando Vitória entrou no canil para dar ração ao animal. Ela foi mordida no pescoço, sofreu lesão em artéria e teve uma parada cardiorrespiratória. Ficou alguns minutos sozinha, ferida, até ser encontrada por um policial legislativo, que conteve o cão, prestou os primeiros socorros e acionou o resgate. Colegas usaram o kit de atendimento pré-hospitalar disponível na Casa para comprimir os ferimentos e conter o sangramento. Levada ao Hospital de Base do Distrito Federal com apoio do Corpo de Bombeiros e do Samu, passou por cirurgia da equipe de trauma e permaneceu quatro dias na unidade de terapia intensiva. O velório aconteceu no domingo, 23, no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul.
Os fatos básicos aparecem sem divergência em toda a cobertura. Vitória havia sido estagiária de Medicina Veterinária no Senado entre 2022 e 2024 e voltou à instituição como profissional terceirizada, contratada pela empresa responsável pelo cuidado dos animais. O cão integra o Serviço de Cinotecnia, criado em 2019 para treinar e empregar animais que auxiliam a Polícia Legislativa em patrulhamento, detecção de substâncias ilícitas, explosivos e armas de fogo, intervenção em distúrbios civis e apoio a operações de busca e apreensão. O animal foi afastado das atividades operacionais, está com a vacinação em dia e passou por exames clínicos cujos resultados ainda não foram divulgados, de modo que não há definição sobre o seu destino.
A ênfase, porém, muda de um lado para o outro. Veículos de esquerda deram peso à condição de trabalho: destacaram que a morte ocorreu durante o exercício da atividade profissional, reproduziram a nota do Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União, o Sindilegis, e insistiram no vínculo terceirizado que ligava a profissional à Casa. A cobertura de centro se concentrou na reconstituição do ataque e do socorro, no atendimento de emergência, nas notas oficiais do Senado Federal e do Conselho Regional de Medicina Veterinária e, nos textos mais recentes, na abertura do inquérito e no enquadramento como acidente de trabalho. Veículos de direita puxaram a apuração institucional: sublinharam que a Polícia Civil periciou o local e deve ouvir testemunhas para esclarecer se houve falha nos procedimentos de segurança do canil, e detalharam a estrutura, a data de criação e o efetivo do serviço de cães mantido pelo Senado.
Ainda não se sabe o que desencadeou o ataque de um animal com o qual a veterinária convivia havia anos, se existia protocolo que exigisse a presença de um segundo profissional durante a alimentação dos cães, qual será o destino do animal depois dos exames e que responsabilidade cabe à empresa terceirizada e à administração da Casa. A conclusão do inquérito, que seguirá para o Ministério Público, é o próximo marco capaz de responder a parte dessas perguntas.