O candidato do Missão à Presidência da República, Renan Santos, defendeu na noite de quarta-feira, 26 de agosto de 2026, que o Brasil desenvolva armas nucleares para garantir o que chamou de soberania. A declaração foi feita em sabatina televisionada com presidenciáveis, na qual ele foi o terceiro entrevistado da semana. "Se o Brasil quiser ser uma das cinco maiores nações do mundo, que se presta a sentar na mesa com Estados Unidos, Índia, Rússia e China, ele vai precisar ter soberania, a soberania sobre o seu próprio território, soberania militar, e vai ter que discutir ter bombas atômicas", afirmou.
Renan Santos reconheceu que o país não teria condições de produzir o artefato nos próximos dez anos e disse não precisar de estudo científico para sustentar a tese. Defendeu ainda que o Brasil deixe o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, a exemplo da Coreia do Norte, país que classificou como respeitado internacionalmente apesar de considerar o regime opressivo. Toda a cobertura registrou o obstáculo jurídico: a Constituição Federal determina, no artigo 21, que a atividade nuclear em território nacional só é admitida para fins pacíficos e mediante aval do Congresso Nacional, e o Brasil é signatário do Tratado de Não Proliferação desde 1998.
Na mesma entrevista, o candidato reafirmou que descumprirá decisões do Supremo Tribunal Federal que considerar ilegais e estendeu a tese a qualquer cidadão. "Decisão ilegal não se cumpre", disse, citando como exemplo a decisão do ministro Alexandre de Moraes que autorizou a quebra do sigilo da fonte de um jornalista, medida que classificou como grotesca. Em segurança pública, prometeu retomar em um ano as áreas dominadas por facções, declarar guerra ao crime organizado, decretar regime de exceção em favelas e construir dez presídios federais com 30 mil a 40 mil vagas cada, ao custo estimado de R$ 6 bilhões, inspirado no modelo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Na economia, defendeu nova reforma da Previdência, corte de gastos e desvinculação dos pisos constitucionais de saúde e educação.
Veículos de esquerda enquadraram o conjunto como projeto autoritário e de prioridade invertida. Destacaram que os R$ 6 bilhões previstos para presídios equivalem a quase todo o orçamento discricionário das 69 universidades federais em 2026, cerca de R$ 6,4 bilhões, apontaram a ausência de propostas sobre feminicídio, violência contra crianças e meio ambiente no plano de governo, e lembraram as denúncias de tortura, prisões arbitrárias e desaparecimentos associadas ao modelo salvadorenho, com pelo menos 470 mortes sob custódia do Estado desde 2022, segundo a Anistia Internacional. Também contestaram a afirmação de que o Brasil seria vassalo da China, lembrando o apoio chinês à posição brasileira diante do tarifaço norte-americano.
A cobertura de centro concentrou-se na verificação factual e no arcabouço legal. Relatou que a checagem considerou verdadeira a afirmação de que o Brasil é o único, entre as grandes nações citadas pelo candidato, sem armas nucleares, e falsa a alegação de que os Estados Unidos não teriam reservas nem processamento de terras raras. Detalhou o acordo bilateral com a Argentina que exige transparência sobre estoques de urânio enriquecido, registrou que apenas a Coreia do Norte abandonou o Tratado de Não Proliferação, em 2003, e recuperou o precedente de Enéas Carneiro, que defendia a bomba nas campanhas presidenciais dos anos 1990, além da proposta de emenda apresentada em 2025 pelo deputado Kim Kataguiri, do mesmo partido, para liberar a produção de armas nucleares.
Veículos de direita deram relevo ao endurecimento penal e ao ajuste fiscal, reproduzindo com menos contestação os argumentos de dissuasão militar e a defesa de um banho de sangue contra criminosos. Apresentaram a nova reforma da Previdência como recusa ao populismo fiscal e enfatizaram a crítica do candidato à política externa do governo, resumida na frase de que o Brasil seria vassalo da China.
O que ainda não se sabe: o candidato não apresentou custo, prazo nem estudo técnico do programa nuclear, tampouco explicou como o país sairia do Tratado de Não Proliferação e do Tratado de Tlatelolco sem sanções, ou como obteria no Congresso Nacional a maioria necessária para alterar a Constituição. Não há resposta pública dos adversários às propostas, e no levantamento eleitoral mais recente citado durante a entrevista o candidato aparecia com 4% das intenções de voto no primeiro turno.