A poucos dias das convenções partidárias, o Partido Liberal (PL) enfrenta uma crise interna que combina uma agenda internacional de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos com a indefinição sobre candidaturas e palanques para as eleições de 2026. O senador Flávio Bolsonaro participa em Washington de uma audiência pública sobre a proposta americana de sobretaxar em 25% produtos brasileiros, etapa final de uma investigação comercial cuja decisão está prevista para 15 de julho. No mesmo período, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro mantém em suspense sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, em meio a um racha público com Flávio.
A cobertura de veículos de esquerda, como o Diário do Centro do Mundo, destacou que a viagem aos Estados Unidos ampliou a pressão dentro do partido. Segundo esses relatos, dirigentes estaduais e pré-candidatos passaram a classificar a condução da pré-campanha como confusa, lenta e desorganizada, cobrando definições que continuam adiadas. A indefinição atinge pelo menos dez palanques estaduais tratados como prioritários, do Distrito Federal a Minas Gerais, passando por Pernambuco, Ceará e Mato Grosso. Esses veículos enfatizaram ainda a centralização das decisões em Jair Bolsonaro, que prepara desde junho uma lista de nomes a apoiar ao Senado e aos governos estaduais, retardando anúncios.
Já a cobertura de veículos de direita, como a revista Veja, concentrou-se no suspense em torno de Michelle Bolsonaro e no impacto do racha sobre a campanha presidencial. Nesse enquadramento, Michelle aparece como o principal ativo eleitoral do bolsonarismo junto ao eleitorado feminino conservador e como líder nas pesquisas ao Senado no Distrito Federal. Após atritos públicos com Flávio, a ex-primeira-dama chegou a comunicar à cúpula do PL que cogitava abrir mão da candidatura, o que mobilizou aliadas como a senadora Damares Alves e a governadora Celina Leão para convencê-la a permanecer, ao menos temporariamente. Comentaristas ouvidos por esses veículos avaliaram que o desgaste embaralha a agenda de Flávio e compromete a estratégia de reduzir a resistência feminina ao senador.
Os dois lados convergem em pontos centrais: a existência de um racha entre Flávio e Michelle, a proximidade das convenções que obrigam a formalizar candidaturas e coligações, e o papel decisivo de Jair Bolsonaro como fiador das definições finais. Também há consenso de que a agenda internacional de Flávio, voltada à sobretaxa americana, disputa espaço com as urgências internas da legenda. A divergência está na ênfase: enquanto a esquerda ressalta a desorganização e a dependência de uma figura central, a direita valoriza o peso eleitoral de Michelle e trata o momento como reorganização estratégica.
O que ainda não se sabe é se Michelle confirmará sua candidatura ao Senado nas convenções, quais nomes serão efetivamente apoiados nos dez palanques estaduais em disputa e qual será o resultado da audiência em Washington sobre a sobretaxa. Também permanece em aberto se o racha familiar será superado a tempo de não comprometer a campanha presidencial do PL, já que a avaliação predominante é de que a ex-primeira-dama dificilmente participará ativamente da campanha de Flávio.