Uma nova pesquisa da Paraná Pesquisas colocou em números a pergunta que domina a política baiana neste início de campanha de 2026: quanto a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, afeta o campo liderado pelo PT no estado. O senador Jaques Wagner, alvo da ação no âmbito do caso Banco Master, recuou na disputa ao Senado, mas continua na faixa das duas vagas. O levantamento ouviu 1.500 eleitores em 64 municípios entre 27 e 30 de junho, com margem de erro de 2,6 pontos percentuais, e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BA-04848/2026.
No cenário para o Senado, Rui Costa aparece na liderança com 50,6%, seguido por Wagner, com 36,7%. O dado mais sensível está no comparativo: em maio, Wagner tinha 40,6%, uma queda de quase quatro pontos. No mesmo período, Rui Costa subiu de 48,8% para 50,6%. Na disputa pelo governo, ACM Neto, do União Brasil, lidera com 49,2% contra 37,5% do governador Jerônimo Rodrigues, do PT, uma distância de 11,7 pontos. Apesar da desvantagem eleitoral, Jerônimo mantém 52% de aprovação na gestão, ante 53,9% em maio, enquanto a desaprovação subiu para 45,1%.
O pano de fundo é comum a todas as coberturas. Wagner foi obrigado a deixar a liderança do governo no Senado depois que a Operação Compliance Zero, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, apontou sua relação com Augusto Lima, sócio do Banco Master, de Daniel Vorcaro. O enteado do senador, Eduardo Sodré, secretário de Meio Ambiente da Bahia, também foi alvo da investigação, mas o governador garantiu sua permanência no cargo. Durante uma agenda de inaugurações, Lula esteve ao lado de Wagner, mas faltou ao tradicional desfile popular do 2 de Julho pela primeira vez em cinco anos.
É na leitura desses fatos que a cobertura se divide. Veículos de esquerda destacaram que, mesmo com o recuo, Wagner permanece na faixa das duas vagas e a direita não conseguiu tomar a vaga, enfatizando a manutenção da liderança de Rui Costa e a aprovação de Jerônimo como sinais de resiliência do campo petista. Nessa leitura, a defesa do senador, que acusa a Polícia Federal de erros graves e pediu anulação ao STF, ganha relevo, assim como a solidariedade pública do governador ao aliado. A cobertura de centro, de perfil mais factual e de agência, relatou o afastamento de Wagner e a agenda de Lula sem tomar partido, apresentando tanto a ala governista que defendeu o afastamento por temer contaminação da imagem do presidente quanto os setores que queriam fortalecer o senador para não abalar o palanque na Bahia, reduto que deu a Lula a maior vantagem de votos em 2022.
Veículos de direita enfatizaram o desgaste e o embaraço ao PT. Nessa chave, o não comparecimento de Lula ao desfile foi lido como manobra para evitar aparecer ao lado de aliados enrolados no escândalo, e ganharam destaque os números de uma pesquisa Atlas segundo a qual 74% dos brasileiros acreditam que Wagner recebeu vantagens indevidas, com parcela relevante enxergando contaminação da imagem do próprio governo. Essa cobertura lembrou ainda que o escândalo não poupa a oposição: ACM Neto recebeu 3,6 milhões de reais do Master e da gestora Reag, segundo relatório do Coaf, e o petista Rui Costa também sofre arranhão de imagem por suspeitas de favorecimento.
O que ainda não se sabe é o tamanho real do impacto eleitoral do caso Banco Master ao longo da campanha. Um antigo aliado de Rui Costa apostou que o tema pode virar um não assunto nos debates, já que envolve políticos de vários espectros, mas as apurações seguem em curso e os desdobramentos judiciais contra Wagner e os demais citados ainda não estão concluídos.