O Progressistas, um dos principais partidos do Centrão, anunciou na sexta-feira, 31 de julho, que vai manter neutralidade na disputa presidencial de 2026 e não fechará aliança formal com o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL. A decisão trava as conversas para colocar a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina como vice na chapa e frustra o plano do senador de ampliar seu tempo de rádio e televisão na campanha. A ex-ministra só aceita concorrer se o próprio PP embarcar na candidatura, o que segue incerto.
A cobertura de centro e de direita converge no fato central: o PP recuou de uma aliança que até pouco tempo parecia natural, e esse recuo se estende ao Republicanos e ao União Brasil, com quem o PP forma federação. Todos os relatos apontam que dirigentes do partido preferem preservar suas bancadas a atrelar a legenda a uma candidatura de oposição.
A divergência está na explicação do porquê. A cobertura de centro, apoiada em reportagem de bastidores, deu peso ao chamado fator STF: quatro aliados do candidato relatam que lideranças do Centrão citam pressões e recomendações de ministros do Supremo Tribunal Federal como razão para não se aliar ao filho de Jair Bolsonaro, seja por medo de retaliação, seja pelo risco de o próprio Flávio virar alvo de medida judicial até o fim da eleição. Pesam ainda inquéritos sobre o financiamento do filme Dark Horse, ligado ao Banco Master, e apurações conduzidas por Alexandre de Moraes e Flávio Dino sobre crime organizado e emendas parlamentares.
Já a apuração com dirigentes do PP falando abertamente enfatizou a estratégia eleitoral fria. Segundo o presidente do PP paulista, a neutralidade foi definida em consulta aos diretórios estaduais e busca eleger, ao lado do União Brasil, a maior bancada da Câmara. O partido optou por concentrar os recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha nas eleições proporcionais, em vez de gastar com uma vice. Uma bancada maior amplia a fatia de fundos, o acesso a emendas e o poder de barganha com o próximo presidente. Arranjos regionais também contam: na Paraíba, no Maranhão e no Piauí, reduto de Ciro Nogueira, há acordos locais com o PT, incluindo uma trégua para poupar Ciro de ataques.
Veículos de direita tendem a enquadrar a decisão como efeito de intimidação institucional que isola a oposição, enfatizando o medo do Supremo. Uma leitura de esquerda tenderia a destacar o pragmatismo e o fisiologismo do Centrão, que calibra apoios por fundos e emendas e se afasta do bolsonarismo quando a exposição judicial vira risco eleitoral. Pesaram ainda a mágoa de aliados de Ciro com a forma como Flávio tratou o caso Banco Master e o desgaste na disputa por vagas ao Senado em Santa Catarina.
O que ainda não se sabe é se Tereza Cristina poderá aderir por conta própria, se o União Brasil e o Republicanos seguirão o mesmo caminho e se as investigações citadas avançarão sobre Flávio durante a campanha.