Uma pesquisa Datafolha divulgada nos dias 3 e 4 de julho de 2026 revelou que 65% dos brasileiros concordam mais com a frase 'quanto menos eu depender do governo, melhor estará minha vida'. É o maior percentual da série histórica do instituto, iniciada em 2013. Outros 31% afirmam o contrário, que quanto mais benefícios do governo tiverem, melhor estará sua vida, enquanto 4% não souberam responder.
O indicador integra o chamado eixo econômico da matriz ideológica do Datafolha, um conjunto de perguntas usado para classificar o posicionamento econômico dos entrevistados. Além da questão sobre dependência do Estado, a escala reúne temas como impostos, atuação do governo na economia, apoio a grandes empresas nacionais, leis trabalhistas e responsabilidade pelos investimentos no país. O levantamento foi feito presencialmente em 17 e 18 de junho de 2026, ouviu 2.004 eleitores a partir de 16 anos em 139 cidades e tem margem de erro de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-09956/2026.
A cobertura de centro, representada pelo g1, relatou os números de forma direta e factual, destacando que o percentual dos que defendem menor dependência do governo é o maior desde 2013. Naquele primeiro levantamento, as opiniões estavam empatadas: 47% defendiam depender menos do governo e 47% preferiam mais benefícios estatais. Ao longo dos anos, especialmente nas edições de 2014, 2017 e 2022, essa diferença se ampliou de forma constante.
Veículos de direita enfatizaram o resultado como um sinal de virada cultural a favor da liberdade econômica e da responsabilidade individual. A Revista Oeste destacou o recorde histórico, associou o tema ao esgotamento do modelo assistencialista e ilustrou a reportagem com a imagem de uma fila do Bolsa Família, além de remeter a um artigo crítico ao programa Desenrola. Nessa leitura, o eleitorado brasileiro estaria premiando autonomia e produtividade em vez de transferências do Estado.
Os recortes internos da pesquisa alimentam interpretações distintas. Por gênero, 71% dos homens preferem menor dependência do governo, contra 59% das mulheres. Regionalmente, o Sudeste lidera, com 70% defendendo menos dependência, enquanto no Nordeste 38% acreditam que mais benefícios públicos melhoram suas vidas, o maior índice entre as regiões. Há ainda o recorte por preferência eleitoral: entre os eleitores de Lula, do PT, 50% concordam com a frase que defende menos dependência do governo; entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro, do PL, esse número sobe para 79%.
Esses recortes explicam por que a leitura do dado divide. A cobertura de esquerda tende a ler com cautela uma pergunta que opõe 'depender do governo' a ter uma vida melhor, argumentando que a formulação binária carrega juízo negativo sobre políticas de proteção social. Sob esse ângulo, o fato de o Nordeste, região historicamente mais pobre, valorizar mais os benefícios públicos, e de metade dos eleitores de Lula ainda defender menos dependência, mostraria um retrato mais complexo do que a moldura pró-mercado sugere. Veículos de direita, ao contrário, leem a mesma série histórica como prova de uma mudança estrutural de mentalidade em direção ao mercado e à iniciativa privada.
O que ainda não se sabe é como esse humor econômico se traduzirá em voto na eleição de 2026 e se a tendência de crescimento da preferência por menos Estado se manterá nas próximas edições. Também não está detalhado, nas coberturas, como se comportam os recortes por renda e escolaridade, que ajudariam a qualificar quem, de fato, diz preferir depender menos do governo.