O Palácio do Planalto passou a cobrar dos ministros de Luiz Inácio Lula da Silva uma presença pública mais intensa pelo país durante o período de campanha eleitoral. A Casa Civil fixou uma meta de três viagens semanais para cada integrante do primeiro escalão, voltadas a inaugurações e visitas a obras do governo federal. Quem não conseguir cumprir o roteiro deve, no mínimo, conceder três entrevistas por semana a veículos de imprensa regionais. Em reuniões semanais no Planalto, os chefes de pasta apresentam seus cronogramas de deslocamento e as previsões de entrevistas.
A ofensiva começou nas últimas semanas, coordenada pela Casa Civil a pedido do Gabinete Presidencial, e vem acompanhada de um cerco jurídico. A Secretaria de Comunicação Social, a Secom, e a Secretaria de Assuntos Jurídicos, a SAJ, distribuíram orientações para calibrar o tom das falas públicas: nada de discursos ufanistas dirigidos ao presidente, nada de exagero nos elogios à gestão. O nome de Lula pode ser citado, desde que a fala não seja interpretada como propaganda eleitoral pelo Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. Também estão vedadas publicações sobre as agendas nas redes oficiais dos ministérios, além do uso de logomarca ou slogan do governo. Nos eventos, a única identidade visual permitida é a bandeira do Brasil. A Casa Civil mapeou os ministérios da Saúde, da Educação e dos Transportes como as pastas com mais entregas na ponta nas próximas semanas, de ônibus escolares e unidades móveis de saúde a obras de escolas.
Os dois lados que cobriram o caso convergem no essencial. Ambos relatam que houve distribuição de metas de agendas públicas às pastas, que a orientação é acelerar a comunicação das entregas sem violar a legislação eleitoral e que tudo acontece dentro do chamado defeso eleitoral, o período em que a administração pública precisa evitar atos que a Justiça Eleitoral possa classificar como propaganda irregular. Também há acordo sobre o pano de fundo: no início de julho o governo adotou regras internas mais rígidas de comunicação institucional e depois recuou, voltando a permitir divulgações e a republicação de conteúdos de portais da gestão federal e da Empresa Brasil de Comunicação, a EBC.
A divergência aparece na escolha do que fica em primeiro plano. A cobertura de centro detalhou o cerco e o motivo dele, registrando que o Planalto teme que qualquer escorregão nas redes sociais motive ações no TSE e possa levar à impugnação da candidatura à reeleição. Foi essa cobertura que trouxe o episódio do Ramal do Apodi, no Rio Grande do Norte: em julho o presidente participou da inauguração do túnel Major Sales, de 6,5 quilômetros, com liberação de água que foi interrompida para a continuidade das obras e retomada nas semanas seguintes. O senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, afirmou nas redes que houve cerimônia em obra inacabada. Já veículos de esquerda enquadraram o movimento como comunicação de entregas, sem citar o risco de impugnação nem a acusação da oposição, e destacaram um ministro ouvido sob anonimato segundo o qual as agendas das pastas já superavam as metas fixadas, o que afastaria incômodo na Esplanada. Nessa leitura, a régua mais alta imposta inicialmente pela Advocacia-Geral da União, a AGU, teria sido mais dura do que o padrão de períodos pré-eleitorais anteriores. Até o fechamento desta síntese, veículos de direita não haviam publicado cobertura própria sobre a orientação da Casa Civil, e a crítica desse campo chega ao noticiário apenas de forma indireta, pela fala do senador reproduzida na cobertura de centro.
Há também um antecedente partidário. Cerca de um mês antes da mobilização, num jantar, o presidente do PT, Edinho Silva, pediu que os ministros se posicionassem de forma favorável à gestão e respaldassem o trabalho de suas pastas, buscando evitar que ficassem recuados durante o embate eleitoral.
O que ainda não se sabe é o conteúdo integral do documento de orientação distribuído pela Secom e pela SAJ, que não foi divulgado. Não há informação sobre quantos ministros efetivamente cumprem a meta de três viagens semanais, nem sobre qual é o número exato exigido de cada pasta. Também não se sabe se algum partido acionou o TSE contra as agendas descritas, e nenhuma manifestação formal do Planalto, da Casa Civil, da AGU ou dos ministérios citados havia sido apresentada até agora.