A Polícia Civil de São Paulo entregou à Polícia Federal, em Brasília, os documentos da Operação Wi-Fi, inquérito que apura suspeita de fraude no contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil. O envio cumpre decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou o compartilhamento dos dados entre as duas corporações. Foram remetidos a íntegra do inquérito, com depoimentos e relatórios, além de provas brutas, como dados extraídos de celulares dos investigados. Aparelhos ainda não periciados em São Paulo seguiram fisicamente para a Polícia Federal.
O material interessa à Polícia Federal porque o Instituto Conhecer Brasil é comandado pela empresária Karina Ferreira da Gama, também proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A corporação federal mantém duas frentes abertas sobre a produção. Uma apura o uso de emendas parlamentares de cerca de R$ 2 milhões destinadas ao instituto e é relatada no Supremo por Flávio Dino. A outra investiga o dinheiro repassado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e é relatada pelo ministro André Mendonça. A expectativa dos investigadores é usar o acervo paulista para cruzar dados e rastrear o caminho do dinheiro.
A Operação Wi-Fi foi deflagrada em 1º de junho de 2026, com sete mandados de busca e apreensão em endereços ligados à empresária e na sede da Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação. Aberta a pedido do Ministério Público, a apuração aponta indícios de possível direcionamento do chamamento público, ausência de capacidade técnica da entidade contratada, sobrepreço, antecipação de repasses e pagamento por serviços não executados. O contrato previa a instalação de pontos de internet sem fio em comunidades da capital paulista.
As três coberturas convergem no essencial: a decisão de Flávio Dino, o conteúdo do que foi compartilhado, a existência dos dois inquéritos federais e o fato de que a empresária investigada em São Paulo é a mesma pessoa por trás da produtora do filme. Também há convergência sobre a recusa do senador Flávio Bolsonaro em prestar contas dos gastos das filmagens, anunciada na segunda-feira, e sobre a declaração do governador Tarcísio de Freitas de que ordem judicial será cumprida.
A divergência aparece no peso dado a cada peça. Veículos de esquerda organizaram a narrativa em torno do desvio de recurso público, destacando que a organização contratada não tinha histórico no setor de telecomunicações e que a negociação de financiamento partiu diretamente do senador ao banqueiro, hoje preso. A cobertura de centro manteve o foco no trâmite: quais dados a Polícia Federal recebeu, que diligências pretende fazer e qual ministro relata cada inquérito, registrando a nota da Prefeitura de São Paulo, que afirmou não ter identificado irregularidade nos serviços prestados. Veículos de direita não registraram o episódio no material reunido para esta análise, e o ângulo institucional do caso, a defesa da polícia paulista como instituição de Estado, chegou ao leitor pela reprodução das falas do governador em veículo de esquerda.
Há números que ainda não fecham entre as versões publicadas. Uma parte da cobertura fala em repasse de cerca de R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro; outra afirma que a produtora declarou gasto de aproximadamente R$ 75 milhões, com mais de 90% do orçamento bancado pelo banqueiro. O valor do contrato municipal aparece como R$ 108 milhões, e apenas uma das reportagens especifica que se trata de valor anual. Também segue sem resposta se algum recurso do contrato de internet chegou de fato à produção do filme, quem responderá pela prestação de contas recusada pelo senador e se a Polícia Federal pedirá novas diligências depois de analisar o acervo recebido. A Go Up Entertainment não se manifestou nas reportagens, e a empresária investigada afirma, sem detalhamento no material publicado, ser vítima de extorsão e fraude processual.