Uma perícia contratada pela produtora Go Up Entertainment concluiu que mais de R$ 54 milhões dos R$ 75 milhões gastos na realização do filme Dark Horse foram desembolsados nos Estados Unidos, o equivalente a cerca de 72% do custo total do longa. No Brasil, ainda segundo o laudo, as despesas somaram R$ 20,92 milhões. O documento foi entregue em junho à Polícia Civil de São Paulo, no inquérito que apura o financiamento da produção, e voltou ao centro do noticiário nesta semana: na segunda-feira, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a acessar os dados da operação contra a produtora, e a polícia paulista repassou o material na noite de quarta-feira.
O laudo afirma que 100% do aporte para a obra veio da Havengate Development Fund LP, sem identificar nominalmente os investidores responsáveis. Entre os gastos feitos nos Estados Unidos estão US$ 383,1 mil em desenvolvimento do projeto, US$ 2,66 milhões em pré-produção, US$ 1,97 milhão em filmagens e US$ 1,95 milhão em pós-produção. No Brasil, o pagamento foi majoritariamente eletrônico: R$ 18,47 milhões, ou 88,29%, saíram por Pix, e R$ 2,34 milhões, 11,18%, por boleto. A produção brasileira, descreve o documento, envolveu equipe binacional com 11 atores americanos, mais de 800 figurantes e cerca de 350 profissionais ao longo de aproximadamente dois meses de filmagens, com despesas de elenco, cenografia, figurino, efeitos especiais, transporte, hospedagem, segurança privada e fornecedores locais.
O inquérito não se limita à contabilidade da produção. A Polícia Civil apura uma eventual conexão entre o dinheiro do filme e projetos do Instituto Conhecer Brasil, organização não governamental vinculada a Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, que firmou contrato com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de Wi-Fi em comunidades da capital. No início de junho, a Polícia Federal deflagrou operação para verificar se esse contrato foi cumprido, se houve licitação e se os recursos foram encaminhados a outras entidades ligadas à empresária. A apuração também busca rastrear cerca de R$ 61 milhões que teriam sido repassados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o longa, e verificar se houve irregularidade nos pagamentos ou eventual contrapartida relacionada ao pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. O processo tramita sob sigilo.
A cobertura de centro tratou o laudo como registro, publicando os números lado a lado com a ressalva de que a perícia foi contratada pela própria empresa investigada, de que o documento não nomeia os beneficiários finais dos pagamentos e de que o inquérito segue aberto. Veículos de direita deram maior relevo à fala do perito Anisio Castelo Branco, para quem a movimentação do filme ocorreu em conta exclusiva e não houve transferência do instituto para a obra, e deslocaram parte do debate para o terreno da disputa eleitoral, com levantamento de consultoria comparando a repercussão do caso nas redes com a das investigações sobre o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Veículos de esquerda não registraram a perícia neste ciclo, e a ausência configura um ponto cego: ficou sem contraponto justamente o ângulo de fiscalização do uso de dinheiro público, ou seja, a relação entre uma organização com contrato municipal e uma produtora privada sob o mesmo controle.
O que ainda não se sabe é o essencial. O laudo não revela quem são os investidores por trás do fundo que bancou integralmente a produção, nem lista os recebedores finais dos pagamentos feitos no Brasil, omissão que o responsável pelo documento justifica pela Lei Geral de Proteção de Dados. Também segue em aberto a origem e o destino dos cerca de R$ 61 milhões atribuídos ao ex-banqueiro, a existência ou não de qualquer contrapartida política, e o resultado da verificação da Polícia Federal sobre o contrato de Wi-Fi. Com o compartilhamento autorizado pelo Supremo, caberá agora à corporação federal cruzar os dados da investigação estadual e dizer se a contabilidade apresentada pela produtora se sustenta.