O financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, entrou em nova fase na última semana de agosto de 2026. Na segunda-feira, 24 de agosto, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou que a Polícia Civil de São Paulo compartilhe com a Polícia Federal todo o material apreendido na operação contra a Go Up Entertainment, produtora do longa. A autorização abrange documentos, relatórios de análise, dados brutos extraídos de equipamentos eletrônicos e as informações de cadeia de custódia das provas. Com isso, a corporação federal passa a ter acesso integral ao que foi recolhido em São Paulo.
A decisão puxou declarações dos dois principais nomes do campo à direita na disputa deste ano. No mesmo dia, em evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro evitou responder sobre a prestação de contas do filme, que ele próprio prometera divulgar em até trinta dias a partir de maio, prazo vencido em 18 de junho. Disse que não houve recuo, que as informações estão disponíveis publicamente e que quem precisa prestar contas é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em seguida, cobrou explicações sobre onde mora e quem paga as despesas de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, na Espanha. Dois dias depois, na quarta-feira, o governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas, afirmou acreditar que o senador não deve nada, mas que terá de explicar publicamente a origem e o caminho do dinheiro, assim como, na avaliação dele, o presidente também tem muito a esclarecer.
Os três relatos convergem sobre a espinha dorsal dos fatos. Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, para bancar a produção. Negou inicialmente a relação com o financiamento e depois reconheceu o pedido, afirmando que os recursos foram usados integralmente no filme. O dinheiro transitou pela Entre Investimentos e Participações e chegou ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, que teve entre seus agentes Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Há duas frentes distintas de apuração: a estadual, sobre suspeita de desvio em contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil para instalar pontos de wi-fi em comunidades, e a federal, sobre possível uso irregular de emendas parlamentares no financiamento do longa. Além da autorização de Flávio Dino, o ministro Edson Fachin encaminhou a André Mendonça uma notícia-crime que pede a investigação de Flávio, Eduardo e Jair Bolsonaro sobre a origem e o destino dos valores.
A divergência aparece na escolha do ângulo. Veículos de esquerda pautaram o caso pela suspeita de lentidão da polícia paulista, subordinada a um governo aliado do investigado, e registraram que o governador precisou negar que a apuração estivesse sendo deliberadamente atrasada, classificando a acusação como desrespeito a uma instituição de Estado. Nessa cobertura, o contrato municipal de wi-fi em comunidades e o dinheiro do banqueiro aparecem no centro do enquadramento. A cobertura de centro concentrou-se nas declarações e no rastreamento do dinheiro, reproduzindo em discurso direto tanto a esquiva do senador quanto a fala do governador sobre presunção de inocência, e recuperando o trajeto dos recursos entre Brasil e Estados Unidos sem sugerir conclusão. Veículos de direita não registraram o episódio no material reunido até aqui, e o argumento de cobrança seletiva, presente nas falas do próprio senador quando aponta o padrão de vida do filho do presidente em Madri e as investigações sobre tráfico de influência, chegou ao leitor pela reprodução dessas declarações, não por análise editorial desse campo.
Ainda não se sabe quanto a produção efetivamente recebeu: o pedido citado é de R$ 134 milhões, mas o governador foi questionado sobre R$ 61 milhões, e nenhuma cobertura explica a diferença. Também segue em aberto o estágio de cada investigação, se há indiciados, quando a produtora apresentará a prestação de contas prometida e se as emendas parlamentares foram de fato usadas no financiamento. A produtora e a defesa do filho do presidente não tiveram posição registrada nas reportagens.