O Supremo Tribunal Federal vive uma disputa interna sobre quem deve conduzir, e em que instância, os inquéritos que apuram suposto tráfico de influência do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O relator é o ministro André Mendonça, sorteado em julho depois que o ministro Alexandre de Moraes determinou a distribuição livre dos pedidos de investigação. Vazamentos sucessivos de trechos das apurações elevaram a temperatura entre o gabinete do relator e a Polícia Federal e levaram o próprio Mendonça a mandar apurar quem repassou material sigiloso à imprensa.
A cobertura de centro relatou que uma ala da Corte sustenta que o tribunal é incompetente para processar o caso: não haveria investigado com foro privilegiado, nem relação com os inquéritos sobre a fraude nos descontos de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social. Um ministro ouvido sob reserva resumiu a avaliação dizendo que não enxerga vínculo com o INSS nem com o caso Master e que o critério técnico virou bagunça. A Procuradoria-Geral da República pediu a Mendonça o envio das apurações à primeira instância pelos mesmos motivos, e integrantes do tribunal alertam que manter os autos no Supremo pode levar à anulação de provas mais adiante. Interlocutores do relator respondem que o Ministério Público já havia concordado, no mês anterior, com a distribuição por sorteio dentro da própria Corte, e leem o movimento como tentativa de retirar dele a relatoria.
Veículos de esquerda destacaram outro ângulo do mesmo episódio. Ao restringir os alvos da investigação sobre os vazamentos aos agentes públicos sob suspeição, deixando de fora profissionais de imprensa, Mendonça teria enviado um recado interno ao tribunal, em contraste com medidas recentes que atingiram fontes de reportagens. Essa leitura enfatiza que as denúncias contra o filho do presidente circulam de forma fragmentada, sem materialidade jurídica demonstrada, alimentam redes de desinformação em ano eleitoral e servem à oposição, que articula no Congresso uma comissão parlamentar mista de inquérito. O mesmo enquadramento aponta que a apuração sobre pagamentos do empresário Daniel Vorcaro à produtora do filme sobre a família Bolsonaro recebe atenção pública menor.
Não houve, no material analisado, cobertura de veículos de direita sobre o caso. Pela linha editorial habitual desse campo, a ênfase provável recairia sobre a igualdade perante a lei e sobre a extensão do foro privilegiado: se não há autoridade com prerrogativa entre os investigados, o processo deveria correr na primeira instância como o de qualquer cidadão, tese que hoje é sustentada pela própria Procuradoria-Geral da República.
Os fatos centrais são comuns às duas coberturas. No fim de julho, Mendonça autorizou dois inquéritos. Um apura se Fábio Luís atuou para viabilizar contrato de fornecimento de cannabis medicinal com o Ministério da Saúde, em favor de empresa ligada ao empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, investigado no esquema da Previdência; o negócio não se concretizou. O outro trata da relação dele com um empresário que buscava contratos na Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência, a Dataprev. Em paralelo, o ministro Flávio Dino relata apurações que tocam o mesmo entorno, entre elas a que investiga o vazamento das informações sigilosas. No Senado, parlamentares de oposição liderados pelo senador Carlos Viana articulam o requerimento da comissão de inquérito, cujo andamento depende do presidente da Casa, Davi Alcolumbre.
Segue sem resposta quem entregou o material sigiloso à imprensa e se a suspeita interna de que o vazamento partiu do próprio gabinete do relator tem lastro. Também não se sabe quando Mendonça decidirá formalmente sobre o pedido da Procuradoria-Geral da República, se a apuração conduzida por Dino, descrita como em estágio mais avançado, chegará a responsáveis, nem se o requerimento de comissão parlamentar mista reunirá assinaturas suficientes. Procurado, Mendonça não se manifestou.