O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reacendeu uma disputa interna no governo ao tratar publicamente o senador Jaques Wagner como 'irmão' durante agenda em Salvador, na quarta-feira. O gesto ocorreu poucos dias depois de Wagner deixar a liderança do governo no Senado, cargo que ele entregou em 24 de junho, após ser um dos alvos da 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal e autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. A operação investiga suspeitas de fraude bancária, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master.
Em seu discurso, Lula defendeu a relação de quase cinco décadas com o senador baiano. 'A gente não escolhe pai, mãe, irmão. A gente escolhe companheiros, e aqui na Bahia eu tenho companheiros de longa data', afirmou, citando também Rui Costa, Jerônimo Rodrigues e Otto Alencar. Auxiliares do Palácio do Planalto haviam orientado o presidente a manter distância protocolar de Wagner para não contaminar a campanha à reeleição, mas Lula ignorou o conselho.
A cobertura de centro, representada pelo Poder360, situou o episódio no contexto eleitoral e apresentou números: levantamento da Paraná Pesquisas divulgado em 1º de julho mostra Rui Costa (PT) com 50,6% das intenções de voto para o Senado da Bahia e Jaques Wagner (PT) com 36,7%. A pesquisa ouviu 1.500 pessoas em 64 municípios entre 27 e 30 de junho, tem margem de erro de 2,6 pontos, grau de confiança de 95% e registro no TSE. O estudo custou 45 mil reais e foi pago pela empresa Bahia Notícias.
Os três eixos de cobertura convergem em torno dos fatos centrais: a fala de Lula, a saída de Wagner da liderança e a existência da operação da PF. A divergência está no enquadramento. Veículos de direita, como a Veja, enfatizaram a incoerência entre o discurso anticorrupção e o gesto de proximidade a um investigado, tratando o abraço como desgaste político e risco eleitoral, e chegaram a insinuar, em legenda editorial, episódios não esclarecidos, como a compra de um apartamento. Uma leitura de esquerda tende a destacar o oposto: a lealdade a um aliado de décadas que ainda não foi condenado, a presunção de inocência e a recusa da cúpula do governo em adotar uma distância que soaria como abandono. A cobertura de centro se ateve aos números e ao andamento da disputa, sem juízo de valor.
O que ainda não se sabe: as matérias não trazem a versão ou a defesa de Jaques Wagner sobre a operação, não detalham quais atos específicos motivaram a ação da PF nem o estágio da investigação, e não há dado que meça, de forma isolada, o efeito do episódio sobre a intenção de voto ou sobre a aprovação do presidente.