O consultor político argentino Fernando Cerimedo foi detido na madrugada de terça-feira, 18 de agosto de 2026, por agentes da Força Especial de Combate ao Crime, a FELCC, no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Ele se preparava para embarcar em um voo para a Argentina. A prisão ocorreu poucas horas depois de a advogada e analista política boliviana Nadia Beller ser atingida por três disparos na entrada de um edifício da mesma cidade, na noite de segunda-feira. Segundo a polícia local, dois homens vestidos como entregadores e de capacete subiram uma escada até a porta do prédio, um deles atirou contra a mulher e ambos fugiram em uma motocicleta roubada. A vítima foi hospitalizada e permanece internada.
O comandante da Polícia de Santa Cruz de la Sierra, David Gómez, afirmou que Cerimedo foi preso para que se investigue eventual participação no ataque e que ele e a advogada tiveram, nas palavras do policial, um problema de caráter sentimental. Até a última atualização das reportagens, a defesa do consultor não havia se pronunciado, e não há acusação formal apresentada.
Cerimedo é um dos nomes mais conhecidos da comunicação política digital na América Latina. Fundador da agência Numen e responsável pelo portal La Derecha Diario, ele começou a carreira organizando a militância digital do peronismo em La Matanza, na Argentina, antes de migrar para a direita e prestar serviço a nomes como Patricia Bullrich, Jair Bolsonaro e Javier Milei. Em 2023, atuou como consultor externo e coordenador de estratégia digital da campanha que elegeu Milei à Presidência argentina. No Brasil, foi indiciado pela Polícia Federal em 2024 no inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado, mas não chegou a ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República e, portanto, não virou réu. Atualmente vive na Bolívia, onde, segundo a imprensa argentina, trabalharia como assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz.
Os dois lados que cobriram o caso concordam sobre o essencial: a prisão no aeroporto, o ataque a tiros contra Nadia Beller, o histórico do consultor na campanha de Milei, o apoio informal à campanha de reeleição de Jair Bolsonaro em 2022, o indiciamento pela Polícia Federal e a difusão de alegações falsas sobre as urnas eletrônicas brasileiras, refutadas pelo Tribunal Superior Eleitoral com base nas auditorias oficiais.
Veículos de esquerda destacaram sobretudo a engrenagem política por trás do personagem. Essa cobertura reconstrói a viagem de Eduardo Bolsonaro a Buenos Aires em outubro de 2022, às vésperas do segundo turno, com agenda organizada pela estrutura do consultor e encontros com lideranças da direita argentina, embora comunicada oficialmente como missão parlamentar. Registra também que Giovanni Larosa, funcionário ligado a Cerimedo, recebeu R$ 3,9 mil da campanha de reeleição do deputado, e que em novembro daquele ano o argentino transmitiu a live intitulada Brazil Was Stolen, vista por mais de 400 mil pessoas, com a tese de comportamento diferente entre urnas novas e antigas. Essa mesma cobertura anota que, em transmissão de 23 de julho de 2026 no canal de Eduardo Bolsonaro, ele repetiu as alegações e afirmou que bastaria adulterar de 5% a 10% das máquinas para mudar um resultado.
A cobertura de centro concentrou-se no caso criminal e no perfil do investigado. Descreve o vídeo do ataque que circula nas redes, cita nominalmente a autoridade policial boliviana, informa que os autores não são identificáveis nas imagens e trata com o mesmo peso o indiciamento pela Polícia Federal e o fato de a Procuradoria-Geral da República não ter oferecido denúncia. Também classifica como falsa, apoiada na auditoria oficial, a alegação de que urnas fabricadas antes de 2020 não teriam sido auditadas.
Veículos de direita não haviam publicado cobertura própria sobre o episódio no conjunto analisado, de modo que não há, até aqui, um enquadramento desse campo a comparar. O argumento previsível desse lado, ainda não escrito, seria o da presunção de inocência e da separação entre uma ocorrência policial sob jurisdição boliviana e a disputa política brasileira.
O que ainda não se sabe é o núcleo do caso. Não há informação pública sobre quem efetuou os disparos, sobre a existência de mandante, nem sobre qual medida judicial sustenta a detenção e por quanto tempo. O estado de saúde de Nadia Beller não foi detalhado além da informação de que segue internada.