O ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, admitiu ter recebido dinheiro da empresária Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal por supostamente atuar como lobista do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, apontado como um dos operadores centrais das fraudes em descontos de aposentadorias do INSS. Em nota divulgada na noite de 3 de agosto de 2026, o assessor confirmou a operação sem informar a quantia. No dia seguinte, declarou que se tratou de um empréstimo pessoal de R$ 249 mil, de natureza estritamente privada e já quitado, e afirmou que nunca manteve relação que caracterize ilegalidade no exercício da função. O presidente determinou que ele apresentasse explicações.
Marcola comandou o gabinete presidencial de janeiro de 2023 até 21 de julho de 2026, quando deixou o cargo para integrar a coordenação da campanha à reeleição. Era o responsável pela agenda do presidente e um dos principais canais de acesso a ele. Em paralelo ao episódio do empréstimo, a Polícia Federal abriu na semana anterior um segundo inquérito, autorizado por ministro do Supremo Tribunal Federal, para apurar possíveis ilícitos do filho mais velho do presidente na comercialização de cannabis medicinal. Além do assessor e do filho do presidente, o procedimento mira servidores do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A relatoria foi definida por sorteio eletrônico determinado pela presidência da Corte, depois de a corporação policial defender distribuição livre e a Procuradoria-Geral da República concordar que os fatos não tinham conexão com o caso do INSS. O sorteio acabou recaindo sobre o mesmo ministro que já relatava a apuração original.
A cobertura de centro concentrou-se na tramitação e nos documentos: o parecer da Procuradoria pela abertura da investigação, o áudio apreendido no celular da empresária em que ela fala em contratar por dispensa de licitação com base em cenário de emergência, a tentativa frustrada de fechar contrato de canabidiol com o Ministério da Saúde em 2024 e 2025, e a viagem do filho do presidente a Portugal com o lobista, no fim de 2024, para visitar uma fazenda de canabidiol. Essa cobertura registrou também a reação interna do Planalto, onde predomina a avaliação de que houve erro, e não crime, e a informação de que o presidente soube do empréstimo poucos dias antes de o caso vir a público, mas depois de já ter escalado o auxiliar para a campanha.
Veículos de direita deram ao caso enquadramento de conduta: destacaram que o funcionário que controlava a porta de entrada do gabinete presidencial recebeu recursos de alvo de investigação, que o valor só apareceu depois da repercussão pública e que a defesa não apresentou documentos junto com a primeira nota. Nessa leitura, o episódio compõe um quadro mais amplo de proximidade entre auxiliares do Executivo e intermediários privados. Veículos de esquerda não haviam publicado cobertura própria do caso até o fechamento desta reportagem, e o contraponto disponível vem das partes envolvidas: o advogado do filho do presidente classificou os pedidos da corporação policial como pirotecnia e pesca probatória, afirmou que setores da Polícia Federal influenciados por adversários abrem inquéritos com finalidade eleitoral e sustentou que a investigação não existiria se o alvo não fosse filho do presidente. A defesa também pediu providências contra o que considera vazamentos criminosos.
Há convergência entre as coberturas em pontos verificáveis: o empréstimo existiu e foi admitido pelo próprio beneficiário; a empresária é investigada e já foi alvo de buscas; existem três inquéritos abertos envolvendo o filho do presidente; e o presidente cobrou explicações publicamente. A divergência está no peso atribuído aos fatos, entre desgaste ético de um auxiliar de confiança e disputa sobre o uso político do aparato de investigação em ano eleitoral.
O que ainda não se sabe é decisivo. Não há confirmação da data da transação, apontada por integrantes do Planalto como possivelmente ocorrida em 2023, nem divulgação dos documentos que comprovariam empréstimo e quitação. Não se sabe se houve qualquer ato de ofício associado ao dinheiro, qual o alcance da apuração sobre os servidores do Ministério da Saúde e da Anvisa, nem quando os inquéritos serão concluídos. A corporação policial não se manifestou publicamente sobre a acusação de motivação eleitoral.