A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, gravou um vídeo dirigido ao público evangélico que foi exibido em 25 de agosto de 2026, no lançamento do comitê Evangélicos e Evangélicas com Lula, coordenado pelo Partido dos Trabalhadores. Na gravação, ela afirma que os valores da solidariedade e da igualdade, que segundo ela guiaram a vida e os governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, são “importantes norteadores da nossa fé cristã”. Diz também ter viajado pelo país nos últimos anos para se reunir com mulheres evangélicas e ter presenciado o trabalho de acolhimento e de proteção da cidadania feito por elas.
A cobertura de centro relatou que o gesto acontece num momento de desvantagem eleitoral clara. Pesquisa Datafolha divulgada na semana anterior apontou Flávio Bolsonaro com 62% das intenções de voto entre evangélicos, contra 29% do presidente. Em julho, os números eram 60% e 31%, ou seja, a distância aumentou. O vídeo foi apresentado como mais um de uma sequência de acenos da campanha petista ao segmento, que inclui um jingle gospel cantado pela primeira-dama ao lado do pastor Kleber Lucas e uma carta ao público evangélico divulgada em junho de 2026. Um ato voltado a esse eleitorado está sendo discutido pela equipe de campanha para ocorrer no Rio de Janeiro.
Os dois lados que cobriram o caso descrevem o mesmo conteúdo do vídeo e as mesmas iniciativas citadas nele: a criação do Dia Nacional do Evangélico, a Marcha para Jesus e o Dia Nacional da Música Gospel. Também convergem no diagnóstico de que se trata de um movimento deliberado de aproximação eleitoral com um eleitorado hoje majoritariamente alinhado ao adversário. A cobertura de centro registra ainda um contraste de comportamento: em 2022, a primeira-dama resistia a gestos mais enfáticos ao segmento e não participou do ato em que o então candidato divulgou carta ao público evangélico, entre o primeiro e o segundo turno.
A divergência aparece no julgamento do gesto. Veículos de direita, em texto opinativo assinado por um pastor, enfatizaram que datas comemorativas e vocabulário religioso não respondem ao que o segmento cobra, e classificaram a iniciativa como ação manipuladora. O argumento é que evangélicos querem políticas públicas contra o aborto, contra a corrupção e contra o que o texto chama de ideologia de gênero e wokismo, e que uma aproximação real exigiria mudança de posição do Partido dos Trabalhadores em programas de educação, cultura e família. A crítica também aponta que a carta de junho evitou as pautas controversas. Até o momento, veículos de esquerda não publicaram cobertura própria sobre o episódio, de modo que a leitura que enfatizaria o papel social das igrejas nas periferias e a defesa da laicidade não aparece no material reunido, ainda que esteja implícita na fala da própria primeira-dama.
O que ainda não se sabe é se o conjunto de acenos altera a intenção de voto no segmento, já que a única medição disponível é anterior ao lançamento do comitê. Não há data definida para o ato no Rio de Janeiro, nem indicação de que a campanha pretenda tratar publicamente das pautas de costumes que a crítica cobra. Também não foram divulgados margem de erro e período de campo da pesquisa citada, e nenhuma liderança evangélica fora do comitê petista se manifestou sobre o vídeo no material disponível.