O Partido Missão oficializou no sábado, em um centro de convenções na Mooca, zona leste de São Paulo, a candidatura de Renan Santos à Presidência da República. O congresso da legenda, ligada ao Movimento Brasil Livre, também marcou o lançamento de candidaturas ao Legislativo e a governos estaduais. Só em São Paulo, foram anunciados 72 postulantes à Assembleia Legislativa e 57 à Câmara dos Deputados.
O traço que organizou a cobertura foi a estrutura de arrecadação montada em torno do próprio evento. Os ingressos mais baratos custaram 94 reais. As categorias superiores chegaram a 7 mil reais e davam acesso a um mezanino com visão privilegiada, bebida liberada e um almoço com lideranças do partido. Havia ainda venda de suvenires, de itens de moda a pelúcias da onça, mascote da sigla. Segundo o partido, o objetivo era levantar recursos para a campanha de seus candidatos.
Até o momento, apenas um veículo cobriu o lançamento, e o fez em registro predominantemente descritivo, listando preços, produtos e regras eleitorais sem recorrer a fontes externas. Por isso não há, neste caso, contraste entre enquadramentos de esquerda, de centro e de direita: existe uma única narrativa disponível, e ela combina a descrição do ato com a justificativa apresentada pela própria legenda.
O ponto central do congresso foi o lançamento da versão definitiva do Livro Amarelo, obra que reúne o ideário do partido e serviu de base ao plano de governo do candidato. O deputado federal Kim Kataguiri subiu ao palco para apresentá-la e anunciou a criação da fundação partidária da sigla, batizada de Instituto Livro Amarelo. Os seis fascículos anteriores foram reorganizados em 14 capítulos, divididos em três tomos. A edição mais simples saiu por 140 reais. Os fascículos antigos continuaram à venda por 100 reais cada, ou 500 reais no conjunto. A edição chamada de luxo, incluída em um kit para patronos, chegou a 7 mil reais. O partido afirmou que o valor arrecadado bancará o primeiro ano de funcionamento da fundação.
O desenho financeiro tem uma explicação institucional. Estreante em eleições, o Missão vai dispor de 3,3 milhões de reais do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o chamado Fundo Eleitoral. A parcela é menor que a dos concorrentes porque a distribuição usa como base de cálculo o tamanho das bancadas já eleitas no Congresso, e a legenda ainda não tem representação própria. A arrecadação direta com apoiadores aparece, nesse contexto, como forma de compensar a diferença.
O obstáculo seguinte é a cláusula de barreira. Para continuar tendo acesso a recursos públicos, como Fundo Partidário, Fundo Eleitoral e tempo de rádio e televisão, o partido precisa eleger ao menos 13 deputados federais ou obter 2,5 por cento dos votos válidos na disputa para a Câmara, com no mínimo 1,5 por cento dos votos em pelo menos nove unidades da federação. Desde que o dispositivo passou a valer, em 2017, apenas um partido estreante conseguiu superá-lo, enquanto outros três fracassaram.
O que ainda não se sabe é quanto o evento efetivamente arrecadou, como esses valores serão declarados na prestação de contas eleitoral e se a venda de ingressos e produtos se enquadra nas regras da Justiça Eleitoral sobre doações e financiamento de campanha. Também não há detalhamento público do conteúdo programático consolidado no Livro Amarelo, nem indicação de quem completará a chapa presidencial. A ausência de outras coberturas impede, por ora, confrontar a versão do partido com a de adversários ou com a avaliação de especialistas em direito eleitoral.