O ex-senador Romero Jucá, do MDB, anunciou em 18 de agosto de 2026 que não disputará uma vaga de deputado federal por Roraima nas eleições deste ano. A comunicação foi feita por nota e por publicação nas redes sociais, três dias depois de o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, suspender a condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro que pesava sobre ele e afastar os efeitos de inelegibilidade. Quando desistiu, portanto, Jucá estava juridicamente apto a concorrer.
Na justificativa, o ex-senador atribuiu a decisão a ataques que, segundo ele, atingiram sua imagem pública e a de sua família. "Gosto de fazer política, a boa política. Contudo, a disputa baixa e vil não cabe mais na minha vida", escreveu. Ele também criticou diretamente o julgamento que o havia condenado, classificando-o como absurdo e ilegal, e sustentou que o processo estava prescrito, que já havia sido absolvido antes e que a análise coube a uma corte sem competência para fazê-la. O Supremo, ao suspender a decisão, acolheu justamente o argumento de competência: entendeu que o Tribunal Regional Federal da 1ª Região não podia julgar o caso.
Os dois lados que cobriram o episódio convergem no essencial. A cobertura de centro e a de veículos de esquerda relatam a mesma sequência de fatos: a decisão do ministro do Supremo no sábado 15, o anúncio da desistência na terça-feira 18, a condenação anterior por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e a trajetória do político. Ambas registram que Jucá foi senador por Roraima durante 24 anos, em três mandatos consecutivos, que preside o MDB no estado, que foi ministro da Previdência Social no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005, e ministro do Planejamento no governo de Michel Temer, em 2016. As duas também informam que o partido ainda não disse se apresentará outro nome na vaga.
A divergência está na ênfase. A cobertura de centro alonga o histórico do personagem e o situa no aparelho de Estado: a presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas em 1986, o governo de Roraima entre 1988 e 1990 por nomeação de José Sarney, as lideranças de governo no Senado sob Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, a saída da liderança de Michel Temer em 2018 por discordar da condução da crise dos imigrantes venezuelanos, e a derrota na disputa ao Senado em 2022. Também registra a condenação sem se alinhar à versão do desistente. Já a cobertura de veículos de esquerda dá mais espaço à íntegra da crítica de Jucá ao Judiciário de primeira instância e detalha o fundamento técnico da decisão do Supremo, o vício de competência do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, enquadrando o caso como correção de rito processual. Veículos de direita não haviam publicado sobre a desistência até o fechamento desta reportagem, o que deixa sem contraponto na cobertura a leitura de que um condenado em segunda instância recuperou a elegibilidade por questão de foro, e não por análise do mérito da acusação.
O que ainda não se sabe é considerável. Nenhuma das reportagens esclarece se a suspensão determinada por Flávio Dino é provisória ou definitiva, nem para qual instância o processo será remetido depois do reconhecimento da incompetência. Também não há resposta pública do Ministério Público Federal ou do próprio tribunal às alegações de prescrição e de absolvição anterior feitas pelo ex-senador. Não se sabe se o MDB de Roraima substituirá o nome na chapa à Câmara dos Deputados nem se Jucá permanecerá à frente do diretório estadual do partido durante a campanha.