A escolha do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL), anunciada em 5 de agosto de 2026, reorganizou de uma só vez a disputa pelas duas vagas ao Senado por Alagoas. Gaspar havia confirmado a própria candidatura ao Senado apenas um dia antes e liderava as pesquisas no estado. Ao migrar para a chapa presidencial, ele deixa vago o espaço que dividia com o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) no eleitorado de direita alagoano.
O dado que sustenta a leitura de toda a cobertura é o mesmo: levantamento do Paraná Pesquisas divulgado em 3 de julho apontava Gaspar com 40,4% das intenções de voto, Lira com 39,8% e o senador Renan Calheiros (MDB-AL) com 36,4%, um empate técnico dentro da margem de erro de 2,7 pontos percentuais. Com a saída do primeiro colocado, a expectativa é que os votos do campo conservador se concentrem em Lira e que a eleição se converta em polarização direta com Renan Calheiros, que tenta a reeleição na chapa apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e encabeçada por Renan Filho (MDB) no governo estadual. O grupo governista também lançou o deputado estadual Dr. Wanderley (MDB) para a segunda vaga, enquanto a oposição ainda aguarda a definição do ex-prefeito de Maceió JHC (PSDB), cotado para disputar o governo do estado.
A cobertura de centro relatou o episódio como um rearranjo de tabuleiro e detalhou a trajetória do novo candidato a vice: 55 anos, natural de Maceió, 24 anos como promotor de Justiça, coordenador do combate às organizações criminosas no estado e procurador-geral de Justiça por dois mandatos. Registrou também o histórico partidário recente, com a filiação ao MDB em 2020 com apoio da família Calheiros, o rompimento em 2022 e a migração até chegar ao PL, aproximando-se do grupo de Lira. E lembrou que a projeção nacional de Gaspar veio da relatoria da CPMI do INSS, aberta para investigar fraudes em empréstimos consignados e descontos associativos de aposentados, cujo parecer final, com mais de 4.300 páginas, propôs o indiciamento de mais de 200 pessoas, entre elas o filho do presidente, mas foi rejeitado por 19 votos a 12, encerrando a comissão sem relatório aprovado.
Veículos de direita enfatizaram que o ganho de Lira não é automático para o projeto do campo conservador no Senado. Nessa leitura, Gaspar tem alinhamento ideológico mais forte com pautas como o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, enquanto Lira mantém postura mais discreta: como presidente da Câmara, defendeu que a Corte se atenha às suas competências, criticou as medidas cautelares determinadas contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e articulou a votação do projeto de dosimetria que reduziu penas de condenados pelo 8 de Janeiro, mas também enterrou a proposta de emenda que buscava restabelecer o voto impresso. Essa cobertura destacou ainda o pedido de prisão preventiva feito no parecer da CPMI contra o filho do presidente, sem informar que o relatório foi rejeitado, e lembrou que Lira retomou no fim de julho o discurso de desinflamar o país.
Veículos de esquerda não produziram cobertura própria deste rearranjo até o momento. Pelo prisma da esquerda, o ponto de atenção seria justamente a conversão de uma investigação parlamentar em ativo eleitoral: o relator cujo parecer foi derrotado na comissão foi promovido a vice de uma chapa que pretende explorar o tema do INSS na campanha presidencial, enquanto os aposentados lesados pelos descontos indevidos seguem sem reparação discutida no debate público. Esse campo também tende a valorizar o peso eleitoral do governo federal no estado, onde o presidente obteve 58,68% dos votos no segundo turno de 2022, vencendo em 89 dos 102 municípios.
O que ainda não se sabe é o tamanho real da transferência de votos. Não há pesquisa divulgada após a saída de Gaspar da corrida, nem confirmação formal de que o eleitorado que o apoiava migrará integralmente para Lira. Também seguem indefinidos o nome que a oposição lançará ao governo estadual e a forma como PL e PP vão operacionalizar, no palanque alagoano, a aliança firmada antes da definição da chapa presidencial.