O influenciador Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, provocou uma nova onda de repercussão ao atacar jornalistas durante uma transmissão ao vivo na noite de terça-feira. Nas falas, ele chamou profissionais da imprensa de 'putas pagas' e 'prostitutas de alma', disse preferir ser apresentado às filhas como 'gigolô' do que como jornalista e afirmou que a jornalista Míriam Leitão 'não merecia ser estuprada'. As ofensas foram feitas enquanto criticava o volume de publicidade estatal destinada a veículos de comunicação.
Na quarta-feira, entidades da categoria reagiram. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, a Federação Nacional dos Jornalistas e a Comissão Nacional de Mulheres Jornalistas divulgaram uma nota classificando as declarações como misóginas, criminosas e ofensivas à liberdade de imprensa, e cobraram providências 'imediatas e rigorosas' das autoridades, além da responsabilização do influenciador.
A cobertura de centro relatou os fatos de forma descritiva: transcreveu as falas na íntegra, atribuiu cada afirmação às entidades que assinam a nota e recuperou o contexto histórico de que Míriam Leitão foi presa e torturada durante a ditadura militar, aos 19 anos e grávida do primeiro filho. Essa cobertura também registrou que uma declaração semelhante, feita no passado, resultou em condenação judicial de Jair Bolsonaro, e que as deputadas Maria do Rosário e Jandira Feghali reagiram associando o caso à necessidade de aprovação do chamado PL da Misoginia.
Veículos de esquerda destacaram o episódio como parte de uma ofensiva sistemática contra a imprensa e contra mulheres, e não um deslize isolado. Enfatizaram o histórico judicial do personagem — investigado por participação em articulação golpista e por esquemas financeiros, com sanções milionárias — e trataram a referência ao estupro contra uma sobrevivente da tortura como um acinte à memória das vítimas e à democracia. Para esse campo, o caso reforça o argumento por proteção legal às mulheres.
Os relatos convergem nos fatos centrais: as falas ocorreram, foram dirigidas nominalmente a jornalistas, e provocaram a reação formal das entidades da categoria. A diferença de enquadramento está no peso: a cobertura factual concentra-se na nota de repúdio e no contexto, enquanto a de esquerda agrega a moldura política sobre quem é o personagem e o significado histórico do ataque. Veículos de direita não repercutiram o episódio no material analisado; o único ângulo potencialmente aproveitável por esse campo seria o questionamento sobre publicidade estatal e independência editorial que o influenciador usou como pretexto, mas que não sustenta as ofensas pessoais.
O que ainda não se sabe é se as autoridades vão adotar medidas concretas de responsabilização, se haverá representação criminal formal e como a pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, que já precisou se distanciar de falas anteriores do influenciador, vai se posicionar diante das novas declarações.