A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro colocou em dúvida sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal e abriu uma nova frente de incerteza dentro do Partido Liberal, às vésperas das eleições de 2026. O sinal partiu do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que afirmou sentir que Michelle pode desistir da disputa e que ela lhe disse não acreditar mais na candidatura. Segundo o dirigente, o partido já começou a discutir nomes para substituí-la na chapa do DF, embora ele tente convencê-la a permanecer e a participar da pré-campanha presidencial do enteado, o senador Flávio Bolsonaro.
O estopim da crise, relatado por veículos de todos os matizes, foi um vídeo em que Michelle afirmou ter sido maltratada, desrespeitada e humilhada por Flávio durante divergências sobre a estratégia eleitoral do partido. Poucos dias depois, ela deixou a presidência do PL Mulher, segmento que Valdemar decidiu extinguir sob o argumento de que 'não há ninguém com o tamanho de Michelle'. A ex-primeira-dama também reduziu sua participação nas articulações da pré-campanha e chegou a dizer, em conversa telefônica, que pretendia apenas 'cuidar da família'.
Há convergência entre as diferentes coberturas sobre os fatos centrais: a existência da crise, a saída do PL Mulher, a sinalização de desistência a Valdemar e o obstáculo legal a uma eventual troca de partido, já que o prazo de filiação para disputar 2026 se encerrou em abril. A cobertura de centro, como a do Correio Braziliense e da CNN Brasil, tratou o quadro de forma factual: registrou que Michelle continua filiada ao PL, que a hipótese de ida ao Republicanos foi negada pela própria assessoria e por Damares Alves, e que a decisão final deve ficar para o período das convenções, até 5 de agosto.
Os enquadramentos, porém, divergem. Veículos de direita enfatizaram a ofensiva dos aliados e o peso eleitoral de Michelle: Damares Alves e a governadora do DF, Celina Leão, sustentam que ela chega como favorita a uma das duas vagas em disputa, mantém 'densidade política própria' e forte apelo entre mulheres e evangélicos, e que sua eventual saída seria um revés para a direita. Nessa leitura, o afastamento decorre do desgaste emocional e do cuidado com a saúde do marido, Jair Bolsonaro, não do abandono do projeto.
Veículos de esquerda destacaram outro ângulo: a crise revelaria a dificuldade do bolsonarismo em dialogar com o eleitorado feminino, agravada pela fala de um aliado de Flávio de que 'mulher vota muito mal', e se somaria às fragilidades do senador, apontado como empatado com Lula em pesquisa e cercado por escândalos. Nessa cobertura também ganhou relevo a investigação do Ministério Público Eleitoral sobre a transferência do domicílio eleitoral de Carlos Bolsonaro para Santa Catarina, que pode afetar uma eventual candidatura dele ao Senado pelo estado.
O que ainda não se sabe é se Michelle manterá ou não a candidatura: ela não anunciou decisão definitiva, e Valdemar planeja uma nova reunião antes do prazo de registro, em agosto. Também segue em aberto o desfecho da apuração sobre Carlos Bolsonaro, que, segundo o próprio promotor, ainda não reúne provas diretas de irregularidade. A definição, reconhecem todos os lados, deve ficar para as convenções partidárias.