Mais da metade das representações diplomáticas dos Estados Unidos no exterior está sem embaixador. Um levantamento da Associação Americana do Serviço Exterior, entidade que representa os funcionários da carreira diplomática americana, com dados atualizados até 3 de agosto de 2026, aponta 107 postos vagos entre os 195 monitorados, o equivalente a 54,9% do total. Desse conjunto, 35 vagas já têm nomes indicados, mas continuam à espera da conclusão do processo de credenciamento.
A cobertura de centro relatou que a lacuna é desigual entre as regiões. Na África, 39 das 51 representações estão sem chefe, ou 76,5% do total. Na América Latina e no Caribe, o índice chega a 60,7%, com 17 vagas entre 28 postos, incluindo países alinhados a Washington, como El Salvador, Paraguai e Equador. Argentina, Chile, Uruguai e Peru têm embaixadores. Também estão sem titular postos considerados centrais para as negociações no Oriente Médio, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Paquistão, além de Ucrânia e Rússia, países em guerra.
O Brasil integra essa lista. Em junho de 2026, Donald Trump indicou o advogado e deputado republicano Daniel Perez para a embaixada em Brasília, mas o nome segue sem o aval formal do governo brasileiro e sem confirmação do Senado americano. A situação escalou para uma crise diplomática, e o Departamento de Estado americano anunciou a revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Veículos de esquerda destacaram que o esvaziamento das embaixadas é consequência de uma reformulação das regras de avaliação e promoção dos diplomatas americanos. Segundo atuais e ex-integrantes do Departamento de Estado ouvidos por essa cobertura, o novo sistema limita o número de servidores aptos a receber as notas máximas, reduz as chances de promoção e passou a tratar a fidelidade como principal característica desejável. Um diplomata aposentado afirmou que vincular o sucesso profissional à lealdade política compromete a qualidade da política externa e ameaça alianças internacionais. A mesma cobertura registra que cerca de 250 diplomatas foram dispensados na reestruturação do ano passado, com as demissões oficialmente confirmadas neste mês após quase um ano de disputas judiciais, e que discussões sobre as guerras na Ucrânia e no Irã passaram a ser conduzidas por Jared Kushner, genro do presidente, e pelo empresário Steve Witkoff.
O governo americano dá outra leitura. O vice-secretário de Estado afirmou que as mudanças restauram a responsabilização e fazem as avaliações refletirem o desempenho real, em vez de notas infladas para evitar conversas difíceis. O porta-voz do Departamento de Estado disse que o secretário de Estado valoriza opiniões francas de servidores comprometidos com o país, mas que o governo não aceitará funcionários que usem seus cargos para minar os objetivos de um presidente eleito. Nenhum veículo de direita cobriu o caso nesta seleção; o enquadramento habitual desse campo trata a renovação de quadros como prerrogativa legítima do Executivo eleito e como controle sobre uma burocracia permanente, ainda que registre o custo operacional de manter mais de cem embaixadas sem titular.
Ainda não se sabe quando, ou se, o governo brasileiro concederá o aval formal ao indicado americano, nem se o Senado dos Estados Unidos confirmará a indicação. Também não está claro se a revogação do visto da embaixadora brasileira será revertida, em que prazo os 107 postos vagos serão preenchidos e qual o efeito prático dessas vagas sobre serviços consulares e negociações em curso.