O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, respondeu "talvez" na quarta-feira, 19 de agosto, ao ser perguntado se pretende disputar a Presidência da República no futuro. É a primeira vez que ele admite publicamente essa possibilidade, ainda que nunca a tenha descartado de forma explícita. Não houve indicação de prazo, e ele não disse se a eventual candidatura ocorreria já em 2030.
A resposta não saiu na sabatina que o governador concedeu pela manhã a uma emissora de rádio, transmitida ao vivo, e sim em um segundo bloco gravado, no formato de perguntas rápidas em que o entrevistado só pode dizer "sim", "não" ou "talvez". O vídeo foi divulgado nas redes sociais no fim do dia. Candidato à reeleição em São Paulo, Tarcísio afirmou na sabatina que apoia a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro, do PL, que os dois participarão juntos de eventos de campanha e que a eleição do senador facilitaria a relação do estado com o governo federal. Na mesma conversa, disse se identificar com o bolsonarismo e citou o esforço da gestão paulista para elevar a cobertura vacinal quando questionado sobre esse alinhamento.
O conjunto de posições declaradas é o ponto em que toda a cobertura converge. O governador defendeu a ampliação do programa de escolas cívico-militares e a construção de novos presídios em São Paulo. Descartou novas privatizações de linhas do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, a CPTM. Rejeitou a isenção do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores, o IPVA, para carros elétricos, sob o argumento de que esses veículos não são fabricados no estado, e acrescentou que, se fossem, o benefício se justificaria. Manifestou apoio à anistia dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro e se posicionou contra a regulamentação das redes sociais.
As ênfases mudam conforme o campo. Veículos de direita destacaram o histórico da sucessão no bolsonarismo, lembrando que o governador foi cotado por anos como herdeiro político de Jair Bolsonaro, do PL, até que o ex-presidente indicasse o próprio filho para representá-lo nas urnas, e sublinharam que ele nunca havia descartado a hipótese em público. A cobertura de centro relatou o episódio de forma descritiva, detalhou a mecânica da entrevista para separar a sabatina ao vivo do bloco gravado e enumerou as posições apresentadas sem hierarquizá-las; a parte mais contextual desse bloco reconstruiu o atrito recente entre o governador e o entorno do senador, incluindo o cancelamento de uma visita a Jair Bolsonaro às vésperas do anúncio da candidatura do filho, as críticas de aliados por falta de apoio explícito e o encontro posterior no Palácio dos Bandeirantes, encerrado com uma foto de mãos apertadas sob a legenda "Projeto Brasil". Nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio no conjunto analisado; a leitura provável desse campo, a partir dos mesmos fatos, é a de que a admissão confirma o uso do mandato estadual como palanque nacional e de que a soma entre anistia aos envolvidos no 8 de janeiro, escolas cívico-militares, novos presídios e recusa à regulamentação das plataformas define uma agenda de ordem e desregulação.
O episódio ocorre em um momento favorável ao governador em São Paulo, onde ele lidera as intenções de voto em levantamentos eleitorais à frente de Fernando Haddad, do PT, no primeiro e no segundo turno, segundo a cobertura. Na terça-feira, 18 de agosto, em evento de um banco privado, Tarcísio já havia criticado a gestão orçamentária do governo Lula e afirmado que, sem equilíbrio nas contas públicas, o Brasil vai "tomar um tombo daqui a pouquinho", num discurso de alcance nacional.
O que ainda não se sabe é o essencial: o governador não disse a qual eleição se referia, não esclareceu se completaria um eventual segundo mandato estadual e não explicou como concilia a hipótese de uma candidatura própria com o apoio declarado à campanha do senador. Também não há, até aqui, reação pública registrada do entorno de Flávio Bolsonaro nem de adversários à admissão feita na entrevista.