O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou em 18 de agosto de 2026 que o Brasil não precisa de um ajuste fiscal do tamanho do que foi executado na Argentina pelo presidente Javier Milei. A declaração foi feita no encerramento da 27ª Conferência Anual Santander, em um hotel na capital paulista, diante de uma plateia formada majoritariamente por agentes do mercado financeiro. “Ninguém está pedindo o ajuste fiscal do Milei, de 15% do PIB. A gente não precisa disso”, disse o governador. Segundo ele, “um ajuste muito mais suave joga a trajetória da nossa dívida para baixo e resolve o nosso problema”, e o resultado seria uma entrada expressiva de capital no país.
Candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas dedicou a maior parte dos 40 minutos de painel a temas nacionais. Disse não ter visão convergente de Brasil com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e cobrou que a eleição presidencial discuta um projeto de país. Afirmou que o último consenso nacional foi o Plano Real, que desde então a política virou um “grande bang-bang” e que a saída passa por liderança política, responsabilidade fiscal e segurança jurídica. Também sustentou que a piora das contas da União pressiona câmbio, inflação e juros, e que a incerteza já leva investidores e o próprio governo paulista a adiar decisões.
As duas coberturas disponíveis convergem nos fatos centrais: o local, a data, a recusa ao modelo argentino, a defesa do gradualismo e a crítica à condução fiscal federal. Divergem no que escolhem colocar em primeiro plano. Os veículos de direita detalharam o restante da fala como demonstração de gestão, listando a reforma administrativa, a extinção de oito empresas públicas, privatizações, concessões e transação tributária, e registrando o salto do investimento estadual de uma faixa anual de R$ 8 bilhões a R$ 12 bilhões para algo entre R$ 30 bilhões e R$ 32 bilhões, além de quase R$ 400 bilhões em investimentos privados contratados. Essa cobertura também narrou a negociação com o governo federal para viabilizar o túnel Santos-Guarujá e o momento em que a plateia aplaudiu a resposta do governador a uma cobrança feita por Fernando Haddad em debate.
Já a cobertura de centro puxou o fio da divergência dentro do próprio campo aliado. Ela lembrou que Flávio Bolsonaro (PL), senador e candidato à Presidência apoiado por Tarcísio de Freitas, promete um “tesouraço” na máquina pública caso eleito, com corte de ministérios e cargos, em linha com a estratégia de motosserra adotada por Javier Milei. Nesta mesma terça-feira, em entrevista a uma rádio, o senador afirmou que faria esse corte “com muita vontade”. E, horas antes da fala do governador, no mesmo evento do Santander, a coordenadora econômica da campanha, a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, defendeu que o ajuste seja duro e informou que Flávio Bolsonaro se reuniu recentemente com o ministro de Desregulação e Transformação do Estado da Argentina, Federico Sturzenegger. O governador não citou o nome do aliado em nenhum momento do painel e deixou o local sem falar com a imprensa.
Até o momento, nenhum veículo de esquerda registrou o episódio, o que deixa o caso sem a leitura que costuma cobrar o custo social do ajuste e questionar o peso do mercado financeiro na formulação da agenda econômica. O painel do evento reuniu ainda os governadores Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), a candidata ao Senado Simone Tebet (PSB-SP) e Renan Santos (Missão).
O que ainda não se sabe é qual o tamanho, em números, do ajuste que Tarcísio de Freitas considera suficiente: ele descartou o parâmetro argentino sem oferecer um brasileiro. Também segue em aberto se a divergência com o programa de Flávio Bolsonaro será enfrentada publicamente pelos dois, já que nenhuma das coberturas obteve resposta da campanha presidencial à contradição apontada, e o governador não deu entrevista após o evento.