O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou em entrevista concedida na noite de 12 de agosto de 2026 que nunca procurou o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), para pedir ajuda na cobrança de ICMS sobre compras internacionais, a chamada taxa das blusinhas. "Isso nunca aconteceu", disse o governador, que acrescentou: "Quem pode me defender é o presidente Lula" e "Você nunca vai me ver falando com ninguém para aumentar imposto, só para diminuir". A fala responde diretamente a Haddad, hoje candidato do Partido dos Trabalhadores ao governo paulista, que havia citado Tarcísio entre os governadores que procuraram o Ministério da Fazenda para viabilizar, por meio dos Correios, a cobrança estadual sobre encomendas vindas do exterior.
O pano de fundo é uma cobrança criada em 2024. Segundo Haddad, a taxa federal sobre compras internacionais foi introduzida pelo Congresso Nacional como emenda no projeto que regulamentou o Programa Mobilidade Verde e Inovação, estabelecendo cobrança extra de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares. "O presidente Lula não queria cobrar a federal. Quem introduziu foi o Congresso Nacional", afirmou o ex-ministro, que descreveu a medida como resposta a um pedido do varejo nacional para equilibrar a concorrência entre a loja física e o produto importado, e não como iniciativa arrecadatória. Tarcísio, por sua vez, separou os dois tributos: o ICMS estadual sobre encomendas, segundo ele anterior, e a elevação do imposto de importação prevista na lei 14.902, que o governo teria pretendido fixar em 60% antes de o Congresso reduzir para 20%. O governador cobrou ainda que o presidente Lula tivesse vetado o dispositivo, como fez com a restrição às saídas temporárias de presos.
Os dois lados convergem em alguns pontos verificáveis. Ninguém contesta que a cobrança extra sobre compras de baixo valor foi inserida no texto que tratava do programa de mobilidade verde, que a alíquota final ficou em 20% e que a lei foi sancionada. Também não há divergência sobre o fato de a discussão ter voltado ao centro do debate por causa da disputa pelo governo de São Paulo, cujo primeiro confronto direto entre os candidatos ocorreu em 9 de agosto de 2026. O que está em disputa é a autoria política da medida e o teor de conversas entre governadores e o Ministério da Fazenda, sem que qualquer registro dessas reuniões tenha sido apresentado publicamente até agora por nenhum dos lados.
A mesma campanha produziu um segundo atrito. No debate, Tarcísio afirmou que Haddad dividiu palco com uma liderança do tráfico da Favela do Moinho. Haddad reagiu perguntando por que, se havia essa informação, a pessoa não foi presa, e depois acusou o governador de mentir. A campanha do governador enviou à imprensa fotos de um evento de junho de 2025 em que o ex-ministro aparece ao fundo do palco ao mesmo tempo que Alessandra Moja Cunha, irmã de uma liderança do Primeiro Comando da Capital. Vídeos da transmissão consultados pela reportagem que checou o material não registram interação entre os dois: no trecho em que ambos aparecem, Haddad conversa com o vice de sua chapa, o ex-governador Márcio França (PSB). Alessandra foi alvo da Operação Sharpe, do Ministério Público de São Paulo com as polícias Militar e Civil, cerca de três meses depois daquele evento.
A cobertura se dividiu na ênfase. Veículos de direita destacaram a fala de Haddad como tentativa de repassar a responsabilidade da taxa ao Congresso e ao varejo, reproduzindo a declaração sem contraditório e sem lembrar que a lei foi sancionada sem veto ao dispositivo. A cobertura de centro tratou o caso de duas formas distintas: uma linha registrou a negativa de Tarcísio e o detalhamento técnico sobre as duas cobranças, com citação direta e referência legal; outra apurou o episódio do palco, checou fotos e vídeos e delimitou com precisão o que o material mostra e o que não mostra. Até o fechamento desta análise, não havia cobertura de veículos de esquerda no conjunto de fontes reunido, de modo que a leitura que enfatizaria a proteção do varejo nacional e dos empregos formais aparece apenas de forma indireta, pela citação da justificativa apresentada pelo próprio ex-ministro.
Permanecem em aberto pontos centrais. Não há documento público que confirme ou desminta a reunião de governadores no Ministério da Fazenda citada por Haddad, nem lista de participantes.