A poucos dias da convenção que deve oficializar sua candidatura à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) continua sem resolver o principal impasse da pré-campanha: quem será a candidata a vice. Em 21 de julho, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que a senadora Tereza Cristina (PP-MS), até então tratada pelo próprio dirigente como a escolha ideal, recusou o convite. Segundo ele, a parlamentar comunicou, em reunião realizada naquele dia em Brasília, que pretende disputar a presidência do Senado, cargo cuja eleição ocorre em fevereiro de 2027.
Há pontos em que toda a cobertura converge. A convenção do PL está marcada para o dia 25 de julho, em São Paulo, e deve oficializar apenas o nome do pré-candidato. O coordenador da campanha, senador Rogério Marinho, afirmou que a vice não será anunciada no evento e que a definição ficará para o prazo previsto na legislação eleitoral, em agosto. A principal alternativa em avaliação é a economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, que já integra a equipe econômica da pré-campanha. Também aparecem como cotadas as deputadas federais Simone Marquetto (PP-SP), Clarissa Tércio (PP-PE), Júlia Zanatta (PL-SC) e Bia Kicis (PL-DF). Todos os relatos registram ainda a mesma declaração do dirigente partidário: quem decidirá a vice é o ex-presidente Jair Bolsonaro, e o pré-candidato "não estava preparado" para a disputa quando foi escolhido.
O episódio circulou entre publicações de centro e de direita, sem cobertura de veículos de esquerda até o momento, o que reduz o contraste ideológico e concentra a divergência no enquadramento. A cobertura de centro tratou o caso como registro factual: a recusa, a data da reunião, a agenda da convenção e a lista de nomes em avaliação, com as falas do presidente do PL transcritas entre aspas e a observação de que o coordenador da campanha tentou minimizar publicamente a avaliação de que o pré-candidato chegou despreparado. Veículos de direita foram além do relato e organizaram o impasse a partir de preocupações do próprio campo conservador: a capacidade da economista cotada de transmitir confiança ao mercado financeiro, sua ligação com o ex-ministro da Economia Paulo Guedes e a necessidade de ampliar o alcance da chapa entre eleitoras, num momento em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro permanece afastada da campanha. Numa dessas apurações, uma fonte partidária não identificada resume o momento dizendo que ao pré-candidato "sobra o desespero".
O obstáculo apontado como decisivo é institucional, não pessoal. Daniella Marques é filiada ao Republicanos e, com a janela de filiação encerrada em abril, só poderá compor a chapa se os dois partidos formalizarem uma coligação. Segundo os relatos de bastidor, o Republicanos passou a valorizar esse poder de decisão e impõe dificuldades à negociação, e o pré-candidato pretende buscar nova reunião com o presidente da legenda, o deputado Marcos Pereira, para tentar destravar o acordo. Enquanto isso, a federação União Brasil-Progressistas caminha para a neutralidade na disputa presidencial, ainda que o dirigente do PL diga acreditar em apoio e cite conversas com Podemos e PSDB em alguns estados.
A leitura do lado da senadora que recusou é de cálculo próprio. Ela pretende enfrentar a hegemonia do atual comando do Senado numa eleição em que dois terços das cadeiras, 54 das 81, serão renovados em outubro. O que ainda não se sabe é o principal: quem será a vice, se o Republicanos aceitará a coligação, se a federação manterá a neutralidade e se haverá reaproximação com a ex-primeira-dama. Nenhuma das versões apresenta manifestação direta da senadora sobre os motivos da recusa, e nenhuma traz a posição oficial do partido apontado como entrave.