O advogado de direita Abelardo de la Espriella, conhecido como El Tigre, venceu o segundo turno da eleição presidencial da Colômbia em um dos pleitos mais apertados da história recente do país. Pela contagem preliminar, ele obteve cerca de 49,66% dos votos contra 48,70% do senador de esquerda Iván Cepeda, herdeiro político do presidente Gustavo Petro. A diferença ficou em torno de 250 mil votos, menos de um ponto percentual.
A cobertura de centro relatou os números com sobriedade e registrou que o resultado ainda não é definitivo. Cepeda anunciou que contestará a apuração e pediu recontagem em mais de 30 mil urnas. A contagem oficial, supervisionada por juízes e tabeliães e exigida pela legislação colombiana, deve levar dias para ser concluída, embora, historicamente, essa checagem raramente altere o resultado da pré-contagem. O próprio presidente Petro pediu que se aguardem os números finais.
Há convergência entre todos os lados sobre o conteúdo da agenda do eleito. De la Espriella prometeu uma guinada conservadora: combate de mão de ferro ao crime, ao narcotráfico e à corrupção, construção de megapresídios, fim das negociações com guerrilhas e grupos armados, redução de impostos, incentivo ao setor privado e corte de até 40% na estrutura do Estado. Ele também sinalizou que pretende preservar algumas medidas sociais populares, como o aumento do salário mínimo. Em seu primeiro discurso, em Barranquilla, adotou tom de reconciliação após uma campanha marcada por extrema polarização.
É na interpretação política que as coberturas se separam. Veículos de direita enfatizaram a vitória como mais um capítulo de uma onda conservadora na América Latina, ao lado de Javier Milei, na Argentina, e José Antonio Kast, no Chile. Destacaram as felicitações de Donald Trump, do secretário de Estado Marco Rubio e do senador brasileiro Flávio Bolsonaro, que classificou o resultado como a vitória das agendas de liberdade econômica e segurança. Nesse enquadramento, o eleito aparece como um outsider que rompe com a elite política tradicional e devolve ao país a promessa de prosperidade e ordem.
Veículos de esquerda, por sua vez, destacaram a fragilidade da margem e a contestação do resultado, além de classificarem Espriella como representante da ultradireita. Chamaram atenção para um episódio paralelo: a prisão, pelo governo Trump, do ativista colombiano Beto Coral em Phoenix, nos Estados Unidos, depois que ele criticou publicamente o candidato. Um memorando do secretário Marco Rubio determinou que o ativista, apoiador de Petro, era passível de deportação, sob o argumento de que sua atividade política prejudicaria os interesses da política externa americana. A cobertura progressista leu o caso como perseguição política e ameaça a direitos de imigrantes, lembrando que Rubio já havia usado o mesmo expediente contra manifestantes em outros contextos.
A cobertura de centro também registrou que o cenário político não é simples para o vencedor. O partido Pacto Histórico, de Cepeda, conquistou mais cadeiras no Senado e na Câmara, ainda que sem controle absoluto, o que pode obrigar o novo presidente a suavizar parte de suas propostas para conseguir aprová-las em um Congresso dividido.
O que ainda não se sabe é o desfecho da contagem oficial e o resultado da recontagem pedida por Cepeda, que só serão conhecidos nos próximos dias. Também permanecem em aberto os detalhes de como Espriella pretende viabilizar o corte de 40% do Estado diante de um Congresso fragmentado, e quais serão os desdobramentos do caso do ativista preso nos Estados Unidos.