Os líderes dos 32 países da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, reúnem-se em Ancara, capital da Turquia, com as atenções voltadas para as pressões de Donald Trump por um aumento expressivo nos gastos militares dos aliados. O presidente dos Estados Unidos chega à cúpula disposto a repisar uma cobrança antiga: que os países-membros elevem o investimento em defesa para ao menos 5% do Produto Interno Bruto de cada um. Hoje, a média entre os aliados fica abaixo de 3%. Trump voltou a ameaçar reduzir a presença militar americana na Europa e chegou a classificar como ridícula uma relação que considera unilateral, sem reciprocidade.
A reunião acontece em um momento delicado. A guerra na Ucrânia atravessa uma fase crítica, sob ofensiva aérea russa e com escassez de munição para os sistemas de defesa antimísseis. Ao mesmo tempo, a escalada militar de Estados Unidos e Israel contra o Irã levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quarto das exportações mundiais de petróleo e gás, o que elevou os preços dessas commodities e gerou pressão inflacionária global. Trump reclama que os aliados não apoiaram efetivamente os EUA nesse conflito e recusaram-se a enviar forças navais para ajudar na reabertura do estreito.
A cobertura de centro relatou os fatos com equilíbrio, dando espaço à fala oficial do secretário-geral da Otan, o ex-primeiro-ministro holandês Mark Rutte, que prometeu dezenas de bilhões de dólares em novos contratos para reforçar as capacidades da aliança e pediu que todos os aliados assumam plenamente suas responsabilidades. Essa cobertura também trouxe a análise ponderada de um professor de relações internacionais da ESPM, para quem a intervenção de Trump em Ancara será recheada de críticas e ameaças, mas dificilmente resultará em ruptura formal, já que a saída da Otan precisaria passar pelo Congresso americano, onde muitos republicanos ainda apoiam a permanência do país na aliança.
Veículos de direita enfatizaram o ângulo econômico e a lógica de reciprocidade defendida por Trump. Nessa leitura, os aliados europeus se acomodaram por décadas sob a proteção militar americana e agora precisam arcar com a própria defesa diante da ameaça representada pela Rússia de Vladimir Putin. A meta de 5% do PIB apareceu como correção de um desequilíbrio, e a promessa de novos contratos bilionários, como sinal de que a pressão americana produz resultados. Já a leitura provável de veículos de esquerda destacaria o custo social de destinar recursos públicos massivos ao armamento, o caráter transacional com que Trump trata uma aliança de segurança coletiva, e o fato de a escalada militar contra o Irã ter encarecido a energia no mundo inteiro, aprofundando a instabilidade.
Há convergência entre as coberturas em pontos centrais: a pressão de Trump é real e recorrente, a Europa caminha para maior autonomia militar, com um fundo de 500 bilhões de euros criado para financiar um sistema europeu de defesa, e a desarmonia interna da Otan interessa sobretudo ao Kremlin, ainda que não seja indiferente à China. No ano passado, sob pressão da Casa Branca, os líderes da aliança já haviam aceitado elevar progressivamente os gastos militares até chegar aos 5% do PIB em 2035.
O que ainda não se sabe é como os governos europeus responderão oficialmente às cobranças em Ancara, se Trump avançará em alguma medida concreta de redução de tropas, e qual será o desfecho das negociações sobre a Ucrânia e o Oriente Médio que pesam sobre o encontro.