Uma sessão da Câmara Municipal de Curitiba terminou em acusação de xenofobia na quarta-feira, 5 de agosto de 2026. Durante a análise de um projeto que cria um cadastro municipal para pessoas em situação de rua, a vereadora Tathiana Guzella, do PL, pediu que a colega Vanda de Assis, do PT, voltasse para o Ceará, estado onde a parlamentar petista nasceu. A fala foi feita em plenário, com a sessão transmitida ao vivo.
O atrito começou quando Vanda de Assis concedeu um aparte à colega. Ao tomar a palavra, Guzella questionou por que a petista, natural de Campos Sales, havia se mudado para a capital paranaense se elogiava a atuação do PT. Na sequência, afirmou que a colega nasceu no Ceará, mas veio, segundo suas palavras, encher o saco em Curitiba. Vanda de Assis retirou o aparte, classificou a declaração como xenofobia e afirmou que xenofobia é crime. O vereador que conduzia os trabalhos desligou o microfone da parlamentar do PL e devolveu a palavra à petista.
Os dois relatos disponíveis convergem no essencial. A cobertura de centro reproduziu a fala entre aspas, descreveu a interrupção do aparte e transcreveu a nota oficial divulgada após a sessão, em que a vereadora do PT afirma que não tratará o episódio como simples divergência política, diz ter orgulho de ser nordestina e anuncia representação interna e medidas na Justiça. Essa mesma cobertura registrou que a parlamentar acusada não se manifestou depois do ocorrido. Veículos de esquerda acrescentaram o desdobramento institucional: a líder da oposição pediu que a fala fosse reproduzida integralmente em ata e nas notas taquigráficas, além da preservação do áudio e do vídeo da sessão com a marcação exata do momento, e outra vereadora defendeu que o caso seja analisado como possível violação do Código de Ética da Casa. Até o fechamento desta reportagem, veículos de direita não haviam publicado cobertura própria do episódio, e nenhuma manifestação da vereadora do PL ou de seu partido consta nos textos disponíveis.
A divergência de cobertura está sobretudo no enquadramento. Veículos de esquerda trataram o caso como episódio de xenofobia contra nordestinos em geral, ligando o ataque à condição de migrantes internos que enfrentam discriminação sem câmeras por perto, e destacaram que a parlamentar atingida vive em Curitiba há cerca de trinta anos, é assistente social e cumpre o primeiro mandato, eleita em 2024. A cobertura de centro manteve o recorte no conflito entre as duas parlamentares e nos passos que a vereadora do PT pretende dar, sem estender o episódio a um diagnóstico mais amplo. A ausência de cobertura à direita deixa sem eco público o argumento, comum nesse campo, de que a apuração deve correr nas instâncias próprias, com direito de defesa, antes de qualquer conclusão sobre crime.
O projeto que motivava o debate ficou em segundo plano. Ele prevê um cadastro voluntário para organizar informações e encaminhar pessoas em situação de rua a serviços públicos essenciais, respeitando as regras da Lei Geral de Proteção de Dados. Antes do atrito, a vereadora do PT criticava a proposta com o argumento de que a capital já dispõe de instrumentos de cadastramento, mas enfrenta falta de vagas de acolhimento e de atendimento efetivo. O texto foi aprovado em primeiro turno por 22 votos a 8 e ainda passará por segunda votação.
O que ainda não se sabe é o desfecho de cada frente aberta. Não há informação sobre a formalização da representação na Câmara, sobre a abertura de processo no Conselho de Ética, nem sobre o tipo de ação judicial que será apresentada e em qual prazo. Também não há data marcada para a segunda votação do projeto de cadastro. E não existe, em nenhuma das versões publicadas, qualquer resposta da vereadora acusada sobre a fala que provocou o episódio.