O governo Lula e o senador Flávio Bolsonaro entraram em confronto público sobre quem deve responder por um eventual novo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros. A poucos dias do fim do prazo de consultas de uma investigação americana que pode resultar em tarifas de pelo menos 25%, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que a viagem de Flávio a Washington, para participar de audiência pública sobre o tema, seria uma tentativa do pré-candidato de se livrar da responsabilidade pela medida.
A cobertura de centro, como a da BBC News Brasil, relatou que Rosa classificou a ida do senador como ineficaz do ponto de vista da negociação e voltada a obter um 'salvo-conduto' eleitoral. O Brasil é alvo de duas investigações baseadas na seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. Entre os pontos levantados pelos americanos estão críticas ao Pix, decisões judiciais que afetariam plataformas digitais e a alegação de que o desmatamento na Amazônia favoreceria produtores brasileiros de carne. O governo nega as acusações e afirma trabalhar tanto por um acordo quanto pela hipótese de que as tarifas venham a ser aplicadas, com medidas de mitigação como o programa Brasil Soberano.
Há convergência entre os veículos sobre os fatos centrais: existe uma investigação americana em curso, há troca pública de acusações entre Lula e Flávio, e o senador viaja aos EUA na semana da audiência. Veículos de todos os matizes registram que Flávio defendeu o Pix junto a Donald Trump e ao secretário Marco Rubio e que Lula usou as redes para criticar o adiamento das tarifas até depois das eleições.
As divergências aparecem no enquadramento. Veículos de esquerda e a fala do governo destacaram que a própria articulação da família Bolsonaro nos Estados Unidos teria ajudado a deflagrar as sanções, tratando a viagem como manobra eleitoral e a defesa da soberania como interesse nacional legítimo. Já veículos de direita, como a Revista Oeste, enfatizaram a versão de Flávio: a de que Lula é 'o único que quer o tarifaço', por ter provocado e se recusado a negociar, e a acusação de que o presidente teria feito lobby a favor do PCC e do Comando Vermelho para evitar sua classificação como terroristas. Nesse enquadramento, o senador surge como quem realmente trabalha para poupar os brasileiros dos 'erros do lulopetismo'.
O que ainda não se sabe é qual será a decisão final das autoridades americanas, descrita como discricionária e a cargo do presidente dos EUA. Também não foi divulgado o teor completo da proposta enviada pelo governo brasileiro, nem há confirmação independente das acusações trocadas sobre suposto lobby por facções. O calendário exato de uma eventual imposição de tarifas segue indefinido.