A Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel, abriu uma investigação contra a Vivo após reclamações de que o sistema Vivo Anti Spam estaria bloqueando chamadas legítimas na rede da operadora. O caso ganhou peso porque, entre as ligações barradas, estariam comunicações de serviços públicos de saúde em São Paulo, incluindo hospitais, UPAs, UBSs e a central de urgências do SAMU-192.
Até o momento, apenas o veículo Revista Fórum, de perfil editorial de esquerda, cobriu o caso, relatando os detalhes técnicos e regulatórios do episódio. Segundo a reportagem, o Vivo Anti Spam funciona de forma diferente de um identificador comum: em vez de apenas sinalizar ao usuário a suspeita de spam, o sistema atua diretamente na rede móvel e impede que a chamada classificada como inconveniente seja completada. Em comunicado oficial de dezembro de 2024, a Telefônica Brasil, dona da Vivo, afirmou que a ferramenta bloqueia as ligações antes de serem completadas para os clientes. O serviço é gratuito e ativado automaticamente para clientes Vivo Móvel, sem depender de aplicativo instalado no celular.
A cobertura de fonte única detalha ainda o vínculo com o poder público. A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo mantém contrato com a 3Corp Technology Infraestrutura de Telecom para serviços de tecnologia e contact center da central de regulação de urgências do SAMU-192. O documento, referente ao contrato 042/2024, está disponível no portal da Prefeitura de São Paulo e inclui a atualização e ampliação da central de telefonia do serviço de urgência.
Há pontos em que a matéria expõe tensões que dividiriam leitores conforme sua leitura política. Sob um ângulo mais próximo da esquerda, o episódio ilustra os riscos de deixar a uma empresa privada o controle sobre quais chamadas chegam ao cidadão, sobretudo quando o filtro atinge serviços essenciais de saúde e falta transparência sobre os algoritmos, auditoria pública e um caminho rápido de contestação. Sob um ângulo mais próximo da direita, o Vivo Anti Spam aparece como uma resposta de mercado legítima ao telemarketing abusivo, aos golpes e às robocalls, com a operadora sustentando que empresas em conformidade com o padrão de autenticação STIR/SHAKEN não são bloqueadas, o que deslocaria parte da responsabilidade para os contratantes públicos que ainda não adotaram a tecnologia.
A própria Anatel reconhece que a autenticação e identificação de chamadas ainda está em fase de adoção gradual, e que ligações legítimas podem continuar sendo feitas sem esses elementos, especialmente por empresas ou operadoras que ainda não aderiram à solução. Esse ponto aumenta a pressão sobre filtros privados que usam a autenticação como critério para tratar chamadas como confiáveis. A agência, que já mantém uma frente regulatória contra chamadas abusivas e robocalls, terá agora de avaliar se o Vivo Anti Spam protege consumidores sem restringir indevidamente o tráfego telefônico legítimo.
O que ainda não se sabe é o desfecho da investigação da Anatel, quantas chamadas foram efetivamente bloqueadas, o número exato de reclamações protocoladas e qual será a manifestação formal da Vivo sobre o caso específico da rede de saúde de São Paulo. Também segue em aberto se a agência imporá novas regras de transparência, auditoria e prazo de desbloqueio para esse tipo de filtro operado na rede das operadoras.