O candidato à Presidência da República Romeu Zema, do Partido Novo, afirmou que os programas sociais brasileiros estão criando uma “geração de imprestáveis que se recusam a trabalhar” e que preferem viver de “bico”. A declaração foi feita em 17 de agosto de 2026, durante a 27ª Conferência Anual Santander, em São Paulo. No mesmo discurso, o ex-governador de Minas Gerais defendeu que o pagamento do benefício seja suspenso para quem recusar três ofertas de emprego, disse que os programas têm “muita fraude e muito mau uso”, classificou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva como “pró-bilionário” e defendeu a privatização de estatais, sob o argumento de que não existe “vaca sagrada”.
Os dois registros disponíveis da fala convergem no essencial. Ambos reproduzem a citação na íntegra, com a frase sobre o bico que, na avaliação do candidato, não qualifica profissional algum porque não há processo nem controle de qualidade. Ambos também apontam que a expressão não é nova: ela já havia aparecido em entrevista a um programa de televisão em maio, em evento da Confederação Nacional da Indústria, em Brasília, em 22 de junho, e na Agenda dos Presidenciáveis, promovida pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, em 8 de julho. A exigência de contrapartida para manutenção do benefício não é improviso de palanque: está registrada no plano de governo da candidatura, que prevê uma “porta de saída estruturada” ligando beneficiários a capacitação e trabalho, além do Programa Casas da Cidadania, com plano individualizado de qualificação, moradia e outros serviços para famílias vulneráveis.
A divergência aparece no recorte. A cobertura de centro tratou a frase como peça de uma agenda econômica mais ampla e reconstituiu o restante do discurso: a crítica ao governo federal como “pró-bilionário”, a descrição do cenário econômico como um “círculo vicioso” de endividamento e juros altos, a avaliação de que programas de renegociação de dívida como o Desenrola são paliativos, e a promessa de que a redução da “gastança” levaria os juros a níveis “civilizados”, de aproximadamente 6%. Também recuperou que, em junho, o candidato propôs um incentivo de R$ 5 mil ao beneficiário que deixasse o programa ao conseguir emprego formal, e que defendeu reformas administrativa e da Previdência.
Veículos de direita concentraram o texto na fala e no que vem depois dela no material de campanha, apresentando a proposta de obrigar a aceitação de vagas como o desdobramento natural do plano de governo, com ênfase na porta de saída e na capacitação. Nesse recorte, sumiram tanto a crítica do próprio candidato aos bilionários quanto a defesa de privatização das estatais, e nem o local nem a data do pronunciamento foram informados ao leitor.
Veículos de esquerda não haviam publicado sobre o episódio no conjunto de matérias reunidas até aqui. Assim, a contestação ao uso do termo “imprestáveis” para descrever beneficiários, a reação do governo federal e a avaliação de pesquisadores de proteção social sobre condicionar renda mínima à aceitação de oferta de emprego seguem sem cobertura desse lado.
O que ainda não se sabe é considerável. Nenhuma das reportagens traz resposta do governo Lula, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social ou de representantes de beneficiários. A acusação de “muita fraude e muito mau uso” não vem acompanhada de auditoria, percentual ou fonte. Também não está definido quais programas seriam alcançados pela regra das três recusas, nem que critérios de salário, jornada e distância tornariam uma oferta de emprego válida para efeito de corte do benefício, nem quem faria essa verificação.