O candidato à Presidência da República Romeu Zema, do partido Novo, afirmou na terça-feira, 18 de agosto de 2026, que seu primeiro ato de governo, caso seja eleito, será acabar com as plataformas de apostas on-line, as chamadas bets. A declaração foi feita em São Paulo, na praça da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Jardim Paulistano, durante um encontro com mulheres que tiveram familiares afetados pelo vício em jogos. Entre os relatos ouvidos pelo ex-governador de Minas Gerais está o de uma mulher que, segundo participantes, deixou de comprar alimentos para os filhos pequenos depois de se tornar dependente das apostas.
Questionado sobre como executaria a medida, Zema respondeu que pretende agir por meio de decreto presidencial. Ao ser perguntado sobre o impacto da proibição nas empresas do setor, comparou as apostas a veneno e disse que a prioridade é interromper a oferta antes de discutir alternativas para as companhias. Também afirmou que o apoio às famílias que já se endividaram será definido depois. No mesmo evento, associou o endividamento aos juros altos e prometeu reforma administrativa, reforma da Previdência, revisão de programas sociais e privatizações, com a meta de levar a taxa básica de juros para no máximo 6% ao ano, além de reduzir o número de ministérios para 22 ou 23.
Os números que sustentam o debate são os mesmos em toda a cobertura. Em 2025, brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões em apostas esportivas, segundo levantamento do Comsefaz, comitê que reúne os secretários de Fazenda dos estados, e as plataformas movimentaram R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix no mesmo período. Pesquisa divulgada em agosto mostrou que 48% dos brasileiros que apostaram em jogos da Copa do Mundo de 2026 perderam dinheiro, 15% terminaram sem ganho nem perda e 37% disseram ter lucrado. A pressão regulatória também aumentou: o Ministério da Fazenda suspendeu em agosto seis empresas responsáveis por 14 marcas por descumprimento de normas, e o Ministério Público do Rio de Janeiro apura um esquema ilegal de apostas que teria movimentado mais de R$ 1,4 bilhão entre 2022 e 2026.
A cobertura de centro concentrou-se no fato e no método: registrou a data, o local, a citação integral, o instrumento anunciado e, sobretudo, a lacuna deixada pelo candidato quando perguntado sobre o que fará pelas famílias já endividadas. Foi também nesse bloco que a promessa apareceu ao lado do restante do programa apresentado nos dois dias anteriores, incluindo o plano de equiparar facções criminosas a organizações terroristas, a intenção de privatizar estatais e a defesa de mais diálogo com os Estados Unidos, sem ceder em temas como o Pix e as terras raras.
Veículos de direita deram outro peso ao episódio. Amplificaram já no título a linguagem moral do candidato, que chamou as bets de praga e de câncer, apresentaram a proibição como resposta a autoridades que teriam fechado os olhos para o problema e encadearam a medida ao diagnóstico econômico mais amplo: o brasileiro se endivida porque os juros são altos e o Estado é caro, de modo que privatizar, cortar despesa e revisar programas sociais seria o caminho para elevar renda em vez de ampliar transferências. Nesse recorte, a perda de benefício para quem recusar três ofertas de emprego aparece como combate à fraude, não como aperto sobre quem já perdeu dinheiro.
Veículos de esquerda não cobriram o episódio no conjunto analisado, e o ângulo que costumam priorizar ficou de fora: a responsabilização das empresas que lucraram com o vício, a exigência de reparação a quem já se endividou e a contradição entre prometer proteger famílias vulneráveis e, no mesmo discurso, anunciar revisão de programas sociais e corte de benefícios. Essa ausência é parte do que o leitor precisa saber ao avaliar a repercussão da promessa.
O tema já circulava na disputa antes desta declaração. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou defender o fim das apostas on-line, e Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição ao governo de São Paulo, classificou as bets como questão de saúde pública. O que ainda não se sabe é o essencial da proposta: qual a base legal para revogar por decreto um setor regulado por lei, o que aconteceria com as empresas hoje licenciadas e com a arrecadação que elas geram, como o governo evitaria a migração dos apostadores para o mercado ilegal já sob investigação no Rio de Janeiro e qual será, concretamente, a política de amparo às famílias que perderam renda.