O ato de lançamento da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição, realizado no domingo, 16 de agosto, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, começou com dois discursos de mulheres. A deputada federal Benedita da Silva, candidata do PT ao Senado, foi a primeira a falar, seguida pela primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja. A ordem dos oradores respondeu a uma cobrança pública feita pelo próprio Lula duas semanas antes.
No dia 2 de agosto, durante a convenção nacional do Partido dos Trabalhadores, Lula reclamou em voz alta da ausência de mulheres entre os discursos. Disse que não era possível que o partido tivesse esquecido de colocar uma mulher para falar no principal evento da campanha e pediu que Janja fizesse um pronunciamento de improviso. Duas semanas depois, a correção apareceu logo na abertura do ato de lançamento.
Benedita da Silva usou o tempo dela para defender a eleição de mais mulheres para o Congresso Nacional e afirmou falar em nome de todas as candidatas do campo governista. Janja, no discurso seguinte, homenageou Marisa Letícia da Silva, ex-primeira-dama nos dois primeiros governos de Lula, lembrando que foi ela quem bordou a primeira bandeira do PT. A primeira-dama afirmou ainda que as mulheres são maioria da população e do eleitorado brasileiro, que têm sonhos, opiniões e vontade de construir um país mais justo, e que o Brasil precisa de um presidente que cuide das mulheres, e não que pense nelas apenas como alguém que cuida dos outros. A frase foi registrada poucos dias depois de o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) dizer que teve filhas exatamente para cuidarem dele na velhice.
Os fatos centrais não são contestados por nenhuma das frentes que cobriram o ato. A cobertura de centro registrou de forma direta que a candidata ao Senado foi a primeira a discursar no evento de domingo, sem acrescentar enquadramento. Veículos de direita deram mais espaço ao percurso do episódio, ligando a escalação das oradoras à reclamação anterior de Lula na convenção e ao embate com Flávio Bolsonaro sobre o papel das mulheres no cuidado familiar, e tratando a mudança como reparo de uma falha de organização admitida pelo próprio candidato. Veículos de esquerda não haviam publicado cobertura própria do ato até o fechamento desta reportagem, de modo que o enquadramento de representação feminina e direitos que esse campo costuma dar ao tema não pôde ser confrontado com material publicado.
Fica em aberto o que a campanha fará com o tema além da ordem dos discursos: não há informação sobre programa específico voltado a mulheres, sobre o peso das candidaturas femininas no palanque petista nos próximos atos, nem sobre como o partido pretende ampliar a bancada feminina citada por Benedita da Silva. Também não aparece nas matérias qualquer resposta de Flávio Bolsonaro à declaração de Janja, nem o detalhamento da agenda seguinte da campanha depois do ato de São Bernardo do Campo.