O escritor e psiquiatra Augusto Cury, candidato à Presidência da República pelo partido Avante, passou o fim de semana tentando transformar a crítica à polarização em plataforma de campanha. No sábado (22), em agenda no interior de São Paulo, defendeu o fim do que chamou de torcida na política. No domingo (23), depois de anunciar a jornalistas que não participaria do primeiro debate presidencial da eleição de 2026, mudou de ideia e entrou no estúdio para dividir o palco com Ronaldo Caiado, do PSD, e Renan Santos, do Missão.
A cobertura de centro relatou os dois momentos com detalhe factual. Em Ribeirão Preto, durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais, Cury afirmou que apoiadores que ignoram os erros dos políticos prejudicam tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto o ex-presidente Jair Bolsonaro, e disse que a política brasileira virou quase religião. No debate, repetiu a tese com outra imagem: sustentou que o país está radicalizado, que venderam a ideia mentirosa de que existem dois barcos e que 90% das dores da população não têm cor partidária. Em seguida falou de violência contra mulheres, desemprego de jovens e impactos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho. A mesma cobertura registrou que ele já se declarou de centro em entrevista anterior, com a fórmula 'mente de direita e coração social', e que seu slogan de campanha é 'centrado no que importa'. Também narrou o vaivém da noite: último a chegar, chamou o evento de teatro, disse que não entraria em protesto e recuou minutos depois.
Veículos de direita deslocaram o foco do candidato para o esvaziamento do debate. Quatro presidenciáveis anunciaram ausência, entre eles Lula, que havia indicado não pretender participar de encontros que, segundo ele, servem apenas para ouvir bobagem, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL, que condicionou sua presença à do adversário. Romeu Zema, do Novo, também faltou. Essa cobertura tratou o caso como padrão da campanha: Sergio Moro desistiu de última hora do primeiro debate no Paraná, e Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, Roberto Cidade, no Amazonas, e Daniel Vilela, em Goiás, seguiram o mesmo caminho nos estados. Especialistas ouvidos avaliaram que a ausência é cálculo eleitoral de quem lidera pesquisas ou já é conhecido do eleitorado e enxerga mais risco do que ganho na exposição, com o custo de reduzir a chance de o eleitor comparar propostas lado a lado.
Não houve, até aqui, cobertura de veículos de esquerda sobre este arco. A leitura previsível desse campo, a partir dos mesmos fatos, seria a de que o discurso de superação dos polos dilui diferenças concretas de projeto entre as candidaturas, justamente nos temas que o próprio candidato elencou no palco, e que o problema central do debate vazio é a fuga dos favoritos à prestação de contas pública, não a polarização em si.
Os relatos convergem em dois pontos. O primeiro é numérico: a pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (21), a primeira depois do início oficial das campanhas, aponta Lula com 39%, Flávio Bolsonaro com 33% e Cury com 2%, em sexto lugar entre os presidenciáveis. O segundo é a queixa do próprio candidato sobre alcance. Ele afirmou que campanhas concorrentes gastam dezenas de milhões de reais para impulsionar conteúdo nas redes sociais e que a maioria de seus seguidores sequer sabe que ele disputa a Presidência, porque, nas palavras dele, o algoritmo não tem democracia.
O que ainda não se sabe é o que ficou de fora de todas as versões. Nenhuma delas detalha o que Cury propõe em segurança pública, economia ou política social além dos temas que enumerou no palco. Também não há resposta das campanhas de Lula, de Flávio Bolsonaro e de Romeu Zema às críticas feitas no estúdio, nem confirmação de que os ausentes participarão dos próximos debates do calendário eleitoral. Nenhuma cobertura traz a ficha técnica da pesquisa citada, com margem de erro e número de entrevistados, e não há dado que permita medir se a bandeira antipolarização move intenção de voto: o único número disponível é o de 2%, medido antes do fim de semana.