O escritor Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência da República, chegou por volta das 19h10 do domingo, 23 de agosto de 2026, ao portão dos estúdios em São Paulo onde seria realizado o primeiro debate entre os presidenciáveis do ciclo eleitoral, e não entrou. Em transmissão ao vivo feita na calçada, com apoiadores e ao lado do candidato a vice na chapa, o ex-deputado federal Júlio Delgado, ele anunciou que desistira de participar. “Os principais atores não estarão”, disse, ao justificar a decisão. Cerca de quarenta minutos depois, após conversar com o diretor de jornalismo da emissora, Fernando Mitre, Cury entrou no estúdio e passou a integrar o confronto televisionado.
A razão apresentada pelo candidato foram as ausências dos dois nomes mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). “Estou profundamente indignado com Lula e Flávio Bolsonaro”, afirmou, classificando as duas ausências como irresponsabilidade. Cury acrescentou que a “gota-d’água” foi a existência de uma entrevista gravada pelo presidente para outra emissora, prevista para ir ao ar no mesmo horário do debate. Em outro trecho da live, resumiu: “Isso não é debate. É teatro”.
O encontro já vinha esvaziado. A lista inicial de participantes reunia Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema (Novo), Renan Santos, Ronaldo Caiado e o próprio Cury. Lula decidiu não comparecer depois que integrantes de sua campanha avaliaram que o formato o colocaria em desvantagem diante de vários adversários nos blocos de confronto direto. Flávio Bolsonaro também ficou de fora, sob a estratégia, discutida por aliados, de só participar dos debates em que o presidente estiver presente, concentrando a disputa no embate entre os dois. Zema, que havia confirmado presença, anunciou desistência no mesmo domingo, dizendo que a mudança de data perdera sentido sem o presidente no palco. A emissora informou que manteria no cenário os púlpitos reservados aos candidatos ausentes. O programa começou às 20h, com perguntas feitas por jornalistas e etapas de confronto direto entre candidatos, com direito a réplica e tréplica, e foi transmitido em televisão aberta e em plataformas digitais, em parceria com outros veículos.
A cobertura de centro relatou o episódio em registro cronológico e descritivo: horário da chegada, teor das falas entre aspas, presença do vice na chapa e, na atualização seguinte, a entrada no estúdio após a conversa com a direção de jornalismo, sem qualificar as decisões de Lula ou de Flávio Bolsonaro. Já veículos de direita enfatizaram o contraste entre o esvaziamento e a responsabilidade de quem lidera as pesquisas, detalhando o cálculo de cada ausência e destacando que a entrevista gravada do presidente iria ao ar no mesmo horário, num enquadramento de cobrança por prestação de contas. Nenhum veículo de esquerda havia publicado sobre o caso até o fechamento desta reportagem; a leitura habitual desse campo tende a deslocar a crítica do candidato para o formato, tratando o debate comercial de confronto direto como espetáculo que reduz o espaço de discussão de políticas públicas e mantém candidatos com pouca estrutura na condição de coadjuvantes.
Alguns pontos permanecem em aberto. Não há registro, no material disponível, do que foi dito na conversa que levou Cury a mudar de posição em poucos minutos, nem confirmação de que ele permaneceu no estúdio até o fim do programa. As campanhas de Lula e de Flávio Bolsonaro não responderam publicamente à acusação de irresponsabilidade, e não se sabe se os dois participarão dos próximos debates já em negociação. Também não há medição sobre o efeito do episódio na intenção de voto dos candidatos que estiveram no palco.