A Braskem, uma das maiores petroquímicas do país, comunicou nesta segunda-feira que seu Conselho de Administração aprovou o pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras, o equivalente a aproximadamente R$ 56 bilhões. O pedido foi levado à Justiça de São Paulo no mesmo dia, horas antes de expirar a tutela cautelar de 60 dias concedida em 25 de junho pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da capital paulista, que suspendia execuções de credores. Com o protocolo, a companhia passa a ter 90 dias de proteção para fechar um plano definitivo de reestruturação.
A recuperação extrajudicial é uma negociação conduzida diretamente com os credores e levada depois à Justiça para homologação, diferente da recuperação judicial, em que o processo corre sob fiscalização judicial desde o início. Para protocolar, a empresa precisou da adesão de credores que representam cerca de um terço dos créditos abrangidos; para homologar o plano, terá de elevar esse apoio a mais de 50%. Cerca de US$ 7 bilhões da dívida estão com detentores de títulos, os bondholders, grupo que ofereceu a maior resistência à proposta inicial de apenas alongar prazos e obter carência. Entre os bancos credores aparecem Banco do Brasil, BNDES, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander. A companhia é controlada pela gestora IG4 Capital, que comprou em junho a maior parte da fatia da Novonor, sucessora da Odebrecht, e tem a Petrobras como sócia.
A cobertura de centro relatou, com base no fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários, que a medida tem escopo limitado e estritamente financeiro e não alcança obrigações com fornecedores, clientes e demais parceiros, que seguem sendo cumpridas normalmente. Os três lados descrevem o mesmo diagnóstico para a crise: excesso de oferta global de petroquímicos, importações baratas vindas da Ásia, custo dos produtos vendidos consumindo cerca de 96% da receita líquida, alavancagem de 14,7 vezes o Ebitda e o encarecimento da dívida com a Selic saindo de 2% em 2020 para 15% em março de 2026. Na semana passada, a joint venture Braskem Idesa, no México, pediu proteção sob o Capítulo 11 nos Estados Unidos, com aporte previsto de US$ 476 milhões da controladora brasileira.
Veículos de esquerda destacaram a cronologia do desastre de Maceió, iniciado em 2018 com o afundamento do solo provocado pela extração de sal-gema, que atingiu cerca de 60 mil pessoas, e lembraram que movimentos de vítimas criticaram como insuficiente o acordo de R$ 1,2 bilhão assinado com o governo de Alagoas em novembro de 2025, diante de estimativas estaduais que apontavam mais de R$ 30 bilhões em danos. Veículos de direita enfatizaram o peso dos juros altos e da concorrência asiática sobre o caixa da empresa e situaram o caso numa onda de reestruturações empresariais no país, citando o pedido de recuperação judicial de uma grande varejista com R$ 17,3 bilhões em dívidas. A cobertura de centro concentrou-se na mecânica da negociação: a recusa da companhia a um empréstimo de US$ 700 milhões exigido por bancos, a proposta da IG4 Capital de alongar linhas por cinco anos com 30 meses de carência e sem corte do principal, a subordinação das dívidas entre empresas do mesmo grupo e a discussão sobre travas para dividendos, fusões e venda de ativos.
O que ainda não se sabe é se a Braskem conseguirá a adesão de mais da metade dos credores dentro dos 90 dias e o que ocorre caso o processo precise ser convertido em recuperação judicial. Segue em aberto o desenho do apoio comercial discutido com a Petrobras, que avalia dar prazo de até seis meses para o pagamento da nafta hoje comprada à vista, sem limite nem data definidos, assim como a eventual venda de ativos, que fontes dizem estar fora da mesa neste momento, mas não descartada adiante. Nenhuma das matérias detalha como ficam, durante a renegociação, as parcelas anuais da indenização ao governo de Alagoas e o processo criminal sobre Maceió, cuja denúncia do Ministério Público Federal foi aceita pela Justiça Federal em junho.