O pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado, do PSD, entrou na disputa de narrativas da eleição de 2026 ao criticar, ao mesmo tempo, a interferência estrangeira no pleito e a diplomacia do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Em sabatina em Brasília, o ex-governador de Goiás classificou como 'escândalo' a participação do presidente da Argentina, Javier Milei, na convenção que oficializou a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro, e afirmou que 'não se governa na esculhambação'. Dias depois, disse que Flávio 'perdeu para um argentino e para um avatar', em referência ao uso de um vídeo gerado por inteligência artificial de Jair Bolsonaro no mesmo evento.
A cobertura de centro relatou os fatos de forma factual: no sábado, Milei chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de 'lixo careca' por não ter autorizado uma visita a Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado. Na mesma semana, o governo dos Estados Unidos estendeu o estado de emergência nacional contra o Brasil, embora sem novas tarifas, já que a Suprema Corte americana derrubou a base jurídica da taxação anterior. O Itamaraty negou visto a dois funcionários do Departamento de Estado que, segundo a imprensa americana, viriam levantar dúvidas sobre a lisura das eleições brasileiras.
Veículos de esquerda enfatizariam a leitura de que a ofensiva de Trump e Milei representa tentativa de interferência externa em favor da candidatura de Flávio, num momento em que o governo trata a defesa da soberania e das instituições como bandeira de campanha. Nesse enquadramento, o ataque ao STF e a Moraes é agressão à democracia, e a resposta do presidente Lula, que disse não permitir que 'ninguém de fora meta o bedelho' no pleito e que não brigará com Trump 'nem a porrete', aparece como contenção responsável diante da pressão.
Veículos de direita destacariam o outro ângulo: o apoio de Milei e do governo Trump como expressão de uma solidariedade internacional da direita a Bolsonaro, que setores da oposição consideram alvo de perseguição política e de censura pela Corte. Nessa chave ganha relevo a crítica de Caiado à diplomacia petista, que ele acusa de ter virado 'braço ideológico do PT', e sua defesa de que o Brasil negocie o tarifaço de até 37,5% em vez de radicalizar, citando terras raras e minerais críticos como moeda de troca. Caiado busca ocupar o espaço de centro-direita, cobrando 'liturgia' do cargo e ordem entre os Poderes.
Há convergência entre os lados em pelo menos um ponto: a entrada de líderes estrangeiros na campanha elevou a tensão diplomática, com a convocação do embaixador brasileiro na Argentina e trocas de farpas entre autoridades. O caso também migrou para o campo jurídico: o ministro Alexandre de Moraes determinou que a defesa de Bolsonaro explique em 48 horas o uso do vídeo de inteligência artificial, sob risco de retorno ao regime fechado, e o tema passou a ser analisado no Tribunal Superior Eleitoral.
O que ainda não se sabe é o alcance prático da nova emergência americana e se haverá sanções adicionais, qual será o desfecho da análise sobre o vídeo de IA na Justiça e no TSE, e como ficará a relação diplomática com Argentina e Estados Unidos até outubro. Também permanece em aberto se Caiado conseguirá consolidar uma candidatura de centro-direita capaz de disputar espaço com os dois polos que hoje lideram as pesquisas.