O candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, endureceu no fim de semana o ataque simultâneo aos dois adversários mais fortes da corrida de outubro: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL. Em entrevista à imprensa no sábado, 1º de agosto, em Florianópolis, depois da convenção estadual do partido que oficializou o ex-prefeito de Chapecó João Rodrigues como candidato ao governo catarinense, o ex-governador de Goiás afirmou que "os dois são grandes adversários da população brasileira" e sustentou que o país "não pode ter uma eleição de rejeitados". Um dia antes, em Belo Horizonte, durante agenda na Exposição do Cavalo Mangalarga Marchador, ele já havia dito que a presença dos dois na disputa enfraquece o debate eleitoral.
As duas coberturas convergem no essencial. Caiado coloca Lula e Flávio Bolsonaro no mesmo pacote, chama ambos de "fujões" por sinalizarem indisposição a participar de debates e tenta se apresentar como alternativa de gestão. Nas duas falas, ele desloca o eixo para indicadores: cita o avanço de facções criminosas no território nacional, afirma que no estado que administrou elas "não têm um palmo de terra" e menciona 9 milhões de jovens fora da escola no Brasil. Sobre a fragmentação da direita no primeiro turno, disse esperar que os projetos convirjam no segundo turno, mas cobrou que o nome sobrevivente chegue lá sem passivo a explicar.
A cobertura de centro deu mais espaço aos fatos que sustentam a acusação. Registrou que Caiado citou nominalmente "rachadinha" e o caso do Banco Master como temas que atrapalhariam um adversário da direita em debate, e ancorou a crítica ao presidente num fato datado: na sexta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça autorizou a Polícia Federal a instaurar novo inquérito sobre o filho mais velho de Lula, com indícios de corrupção e tráfico de influência. Nessa cobertura aparece também o contexto partidário: o PP confirmou neutralidade na disputa presidencial e frustrou a expectativa de que a senadora Tereza Cristina fosse vice na chapa do senador do PL.
Já veículos de direita concentraram o relato na tese da rejeição e do descrédito institucional. Ali ganharam destaque as afirmações de que Lula e Flávio são "os dois mais rejeitados do País", de que existe uma "briga burra" que fomenta o ódio e de que há "desordem institucional" no Brasil, com o cidadão sem acreditar no Supremo Tribunal Federal, no Congresso Nacional nem no presidente da República. Essas afirmações foram reproduzidas sem pesquisa, dado ou contraponto que as sustentassem. Veículos de esquerda não haviam registrado o episódio até o fechamento desta reportagem, e a leitura crítica que costuma acompanhar esse tipo de discurso, sobre o uso eleitoral de inquérito em andamento e sobre o risco de um candidato ao Planalto reforçar a desconfiança nas instituições, ficou ausente da cobertura disponível.
O que ainda não se sabe é considerável. Nenhuma das reportagens traz resposta do governo, do PT, do senador do PL ou da defesa do filho do presidente às acusações. Não há dado público citado que confirme a afirmação sobre rejeição, nem informação sobre onde o próprio candidato do PSD aparece nas pesquisas. Também segue em aberto quem ocupará a vaga de vice na chapa do senador, se a direita de fato convergirá num único nome em eventual segundo turno, se Lula e Flávio participarão dos debates e qual será o desfecho do inquérito recém-autorizado pelo Supremo.