O ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, do União Brasil, anunciou na segunda-feira, 3 de agosto de 2026, que desistiu de disputar uma vaga no Senado pelo Rio de Janeiro. Em vídeo publicado nas redes sociais, disse que tentará um novo mandato de deputado estadual na Assembleia Legislativa do estado e classificou a mudança como decisão amadurecida ao lado de seu grupo político. Ele havia renunciado à prefeitura para concorrer à Casa Alta e ocupava, no palanque do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro, a vaga reservada à federação formada por União Brasil e PP.
A retirada ocorre menos de um mês depois de Canella ser alvo da sexta fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal. Durante o cumprimento das buscas, em 7 de julho, agentes encontraram um fuzil calibre 5,56, arma de uso restrito, no carro utilizado pelo ex-prefeito, que acabou preso em flagrante. A defesa afirmou que o armamento pertencia ao policial militar responsável por sua escolta. O ministro Alexandre de Moraes concedeu liberdade provisória, impôs tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar e entrega de passaportes, e depois revogou as restrições ao verificar o registro da arma em nome do agente. A investigação mais ampla, sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado R$ 7,6 bilhões em seis anos por meio de postos de combustíveis, segue em curso. Canella é apontado como possível braço político do grupo e não foi denunciado nem condenado.
Os três lados da cobertura convergem em pontos centrais: a desistência foi anunciada pelo próprio político, foi precipitada pelo desgaste da prisão e desfalca a chapa bolsonarista no Rio, que hoje conta apenas com o deputado estadual Douglas Ruas ao governo e o senador Carlos Portinho tentando a reeleição. Todos registram também que ele volta a disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa, onde exerceu três mandatos entre 2015 e 2024.
As ênfases, porém, se separam. Veículos de esquerda destacaram o volume financeiro do esquema investigado, a suspeita de participação de agentes públicos e o fato de dirigentes do PL terem avaliado que a candidatura perdera viabilidade, mas terem mantido o nome para preservar a aliança, leitura que trata o recuo como resultado de pressão externa e não de responsabilidade partidária. A cobertura de centro relatou o episódio como bastidor institucional: descreve a decisão como fruto de pressão interna, detalha o que cada legenda ganha e perde na federação, aponta que este é o segundo aliado do presidenciável a desistir de uma vaga no Senado após ser alvo da Polícia Federal e situa o caso numa sequência de reveses na montagem da chapa fluminense, incluindo a desistência do ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa da vaga de vice. Veículos de direita enfatizaram a decisão judicial que revogou as cautelares, o custo eleitoral da perda de capilaridade na Baixada Fluminense diante do avanço do campo governista na região e o desembarque do União Brasil e do PP da coligação, tratado como movimento racional de recomposição de alianças.
O que ainda não se sabe é quem ocupará a vaga aberta. A federação precisa apresentar um substituto, e parte da cobertura indica que o PL avalia lançar um nome da própria legenda. Também não há definição pública e formal sobre a permanência de União Brasil e PP no palanque estadual, nem prazo conhecido para que a Polícia Federal conclua a Operação Unha e Carne ou para que a Procuradoria decida se apresenta denúncia. O efeito da mudança sobre a disputa ao Senado fluminense tampouco está medido: o levantamento mais recente citado nas reportagens apontava Canella com 4% das intenções de voto, num cenário em que vários candidatos apareciam tecnicamente empatados na briga pela segunda cadeira.