A menos de dois meses da votação de outubro, a eleição brasileira de 2026 ganhou uma frente diplomática. Uma comitiva formada por 15 organizações da sociedade civil esteve em Washington e Nova York entre 20 e 24 de julho para pedir a parlamentares norte-americanos que se manifestem em defesa da integridade do pleito brasileiro caso haja tentativa de interferência externa. Segundo um ex-ministro que integrou o grupo, quatro senadores e seis deputados, de legendas dos dois lados do espectro americano, se dispuseram a fazer pronunciamentos em plenário ou manifestações por escrito, se a ameaça persistir e crescer. A delegação também se reuniu com representantes da Organização dos Estados Americanos, da Embaixada do Brasil em Washington e da missão brasileira junto às Nações Unidas.
Quase ao mesmo tempo, o Tribunal Superior Eleitoral foi informado de que o Carter Center não enviará missão para observar as eleições brasileiras deste ano. A organização, criada em 1982 e com mais de cem missões de observação em cerca de 40 países, acompanhou o pleito de 2022 com uma equipe que ficou dois meses no país e produziu relatório sobre o processo. Desta vez, alegou não ter conseguido financiamento. Dois fatores são apontados: a redução de recursos para programas internacionais de cooperação, que teria custado cerca de 10% do orçamento da entidade e um prejuízo estimado em 11 milhões de dólares, e a criação de uma missão própria da União Europeia, que atraiu parte dos doadores europeus. Regras internas impedem a organização de aceitar dinheiro do país que observa.
Nos três pontos há convergência de cobertura. Todos os relatos registram que a observação internacional continua prevista, com missões da OEA, da União Europeia, da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e da União Interamericana de Organismos Eleitorais, enquanto União Africana, Liga Árabe e Parlamento do Mercosul ainda não confirmaram presença. Também é ponto comum que o presidente do tribunal eleitoral defende ampliar o número de observadores como forma de reforçar a transparência do processo.
As ênfases, porém, se separam. Veículos de esquerda destacaram o caráter coletivo e defensivo da missão a Washington, formada por entidades de direitos humanos, centrais sindicais, movimentos populares e organizações indígenas, e sublinharam que o Departamento de Estado americano não respondeu a três convites para reuniões, ao contrário do que ocorreu em 2022. Veículos de direita enfatizaram outro ângulo: a dependência das entidades de observação em relação a verbas públicas dos Estados Unidos, o fato de outra organização americana nem sequer ter sido convidada por esse motivo, e a recomendação que a missão de 2022 deixou registrada, pedindo mais equilíbrio entre a proteção da liberdade de expressão e as medidas de remoção de conteúdos falsos. A cobertura de centro relatou os fatos sem enquadramento de mérito, incluindo o andamento normal do calendário partidário: uma convenção estadual realizada de forma online em São Paulo oficializou 28 candidatos a deputado estadual e 32 a federal, não lançou nome ao Senado e confirmou apoio à reeleição do governador do estado.
O que ainda não se sabe é considerável. Nenhuma das coberturas detalha em que consistiria concretamente a interferência externa temida pela comitiva, nem apresenta evidência independente dela além do relato de que integrantes do governo americano pretendiam vir ao Brasil discutir o sistema eleitoral, viagem para a qual, segundo o Itamaraty, os vistos não foram concedidos. Também não há resposta pública do Departamento de Estado, do tribunal eleitoral ou da organização que desistiu da missão. Permanece em aberto se União Africana, Liga Árabe e Parlasul aceitarão o convite, se a nova articulação das entidades brasileiras junto a países europeus sairá do papel, já que depende de recursos, e quem financiou a viagem aos Estados Unidos.