O Grupo Casas Bahia protocolou na noite de domingo, 16 de agosto, um pedido de recuperação judicial no Foro Central Cível de São Paulo. O processo envolve a companhia e outras nove empresas do grupo e tem como objetivo renegociar uma dívida de R$ 17,3 bilhões. Na própria petição inicial, a varejista informou que demitiu cerca de 3 mil funcionários e fechou quase 300 lojas ao longo de agosto de 2026. O corte equivale a 10% dos 30.117 empregados que a empresa declarava ter no fim de junho, segundo o balanço do segundo trimestre.
O pedido foi apresentado um dia depois da divulgação desse balanço, que expôs a dimensão da crise: prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões entre abril e junho, resultado 18 vezes pior do que os R$ 555 milhões negativos registrados no mesmo período de 2025. A auditoria independente que analisou as contas apontou incerteza relevante sobre a continuidade operacional da companhia. A recuperação judicial é o instrumento previsto na legislação brasileira que suspende a cobrança de dívidas por 180 dias, prazo prorrogável por igual período, enquanto a empresa negocia com credores e mantém as operações funcionando.
Toda a cobertura converge nos números e nas causas alegadas pela empresa. A companhia atribui a deterioração financeira ao período prolongado de juros elevados, à restrição de crédito, ao aumento dos custos financeiros, à queda no consumo de bens duráveis, ao avanço da inadimplência e à transformação digital do varejo. A crise também não é nova: em 2023, o chamado Plano de Transformação fechou 55 lojas deficitárias e eliminou cerca de 8,6 mil postos de trabalho; em 2024, o grupo fez uma recuperação extrajudicial e renegociou aproximadamente R$ 4,1 bilhões com instituições financeiras, sem conseguir se reerguer. Somadas as duas etapas, são cerca de 11,6 mil postos eliminados e aproximadamente 355 lojas encerradas. A empresa afirma manter mais de 20 mil empregados e mais de 700 lojas físicas em funcionamento.
A divergência aparece no que cada lado escolhe mostrar. A cobertura de centro foi às ruas e encontrou unidades do Rio de Janeiro, em Ipanema e em Copacabana, com as portas fechadas desde 14 de agosto, prateleiras ainda abastecidas nas lojas remanescentes, pouco movimento mesmo em temporada de liquidação e funcionários orientados a não comentar a situação; registrou ainda despedidas de demitidos nas redes sociais, com relatos de tristeza e impotência, e deu destaque ao prejuízo bilionário e ao alerta da auditoria. Veículos de direita concentraram o relato na sequência do plano de reestruturação e no ambiente macroeconômico, apresentando a recuperação judicial como o caminho legal para preservar os mais de 20 mil empregos que restam e a operação de mais de 700 lojas, sem mencionar o resultado trimestral negativo nem o parecer sobre continuidade operacional. Veículos de esquerda não haviam publicado sobre o caso até o momento, de modo que o ângulo da responsabilização da gestão e do acionista controlador, assim como o da proteção aos trabalhadores dispensados, permanece fora do noticiário.
Ainda não se sabe se o juízo vai deferir o processamento da recuperação judicial, nem quais lojas exatamente entram na lista de fechamento. Também não foram divulgados a relação de credores, a data da assembleia geral extraordinária que precisa ratificar o pedido, a situação do pagamento de verbas rescisórias aos 3 mil demitidos e se novas rodadas de corte estão previstas.