A crise entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou de ser uma briga de família para se tornar uma fratura política que atravessa a pré-campanha presidencial de 2026. Em vídeos de quase trinta minutos publicados nas redes sociais, Michelle disse ter sido humilhada, desrespeitada e maltratada pelo enteado durante uma conversa telefônica. Flávio negou as acusações, afirmou nunca ter humilhado uma mulher na vida e pediu desculpas publicamente. Poucos dias depois, a ex-primeira-dama renunciou à presidência do PL Mulher, e sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal ficou em aberto.
Há convergência entre todos os lados sobre a origem do atrito. A cobertura de centro, como a do g1, do Estado de Minas e da Reuters, relatou que o rompimento começou no fim de 2025, quando Michelle se opôs à aproximação do PL com o ex-governador Ciro Gomes no Ceará e defendeu candidaturas alinhadas à direita conservadora. Também é consenso que Michelle é hoje a principal liderança do bolsonarismo junto ao eleitorado feminino e evangélico, e que sua saída do comando do PL Mulher priva Flávio de um trunfo eleitoral. Pesquisas citadas por vários veículos, incluindo BTG/Nexus, Datafolha e AtlasIntel, mostram alta rejeição do senador e vantagem de Lula entre as mulheres, com diferenças que chegam a dezoito pontos percentuais em cenários de segundo turno.
As divergências aparecem no enquadramento. Veículos de esquerda, como o Diário do Centro do Mundo, destacaram que a crise escancara a persistência da misoginia no coração do bolsonarismo e a dificuldade do campo em acomodar uma liderança feminina autônoma. Nessa leitura, a fala do influenciador Paulo Figueiredo de que 'mulheres votam mal' e a demora de Flávio em repudiá-la revelam o desprezo do entorno pelo voto feminino, enquanto o chamado 'grupo do exterior', ligado a Eduardo Bolsonaro, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem, empurraria o senador para a extrema-direita. Já veículos de direita, como o portal Ric, a Veja e o Correio da Manhã, enfatizaram a dimensão interna e familiar do conflito: uma disputa pelo espólio político e pelo sobrenome Bolsonaro, com componentes passionais, como o protagonismo dado à ex-esposa Rogéria na chapa ao Senado no Rio. Nessa chave, Flávio é apresentado como quem tenta moderar o discurso, acenar às mulheres e preservar a unidade do campo para derrotar Lula. A cobertura de centro, por sua vez, relatou os fatos com paridade: a renúncia ao PL Mulher, o aceno de Flávio ao eleitorado feminino em seminário do partido, a agenda no Ceará e a viagem aos Estados Unidos, onde o senador pediu o adiamento das tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e discutiu a classificação de PCC e CV como grupos terroristas.
Sobre esse pano de fundo pesa a situação de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, prorrogada pelo ministro Alexandre de Moraes, e é apontado por dirigentes do PL como o único capaz de mediar a disputa entre a esposa e o filho, mediação que até agora não ocorreu. Valdemar Costa Neto tenta conter o desgaste, evita nomear substituta para o PL Mulher e pressiona Flávio a mudar o foco do discurso para a economia.
O que ainda não se sabe é se Michelle manterá ou não a candidatura ao Senado pelo DF, se aceitará subir no palanque de Flávio durante a campanha e se haverá alguma reconciliação antes de outubro. Também permanece incerto o nome da vice na chapa presidencial, disputado entre perfis mais ideológicos e mais técnicos, e qual será o efeito eleitoral concreto da crise sobre a intenção de voto do senador.